quinta-feira, 21 de julho de 2016

Terror cultural

João César das Neves
DN 20160721
O terrorismo é velho como o mundo. Desde sempre que, entre as múltiplas formas de atrocidade, se praticou violência gratuita e cega para manter a sombra do horror. Agora, porém, este paroxismo da barbárie adquiriu novos e desafiantes elementos, que parecem mudar a sua natureza.
A guerra tem sempre forte componente económica: em geral são os ricos e poderosos a ganhar batalhas. Mas o elemento está longe de ser dominante. Desde a Antiguidade impérios foram derrotados por pequenos grupos organizados em guerrilha, insurreição ou outra forma eficaz de guerra dos pobres. Uma dessas é o terrorismo. Capitais de vastos reinos foram atingidas por atentados sangrentos, único meio de ataque de minorias oprimidas.
A imprensa e a comunicação de massas deram ao método maior eficácia e influência. Voando as notícias com rapidez e amplidão, um acto bem dirigido assombra vastas populações. Nasceu assim o terrorismo moderno, cujo maior impacto histórico aconteceu a 28 de Junho de 1914, quando um atentado em Sarajevo provocou uma guerra mundial.
Todos esses exemplos, apesar de parecerem caprichosos, tinham objectivos concretos e usavam métodos eficazes. A vítima podia ser inocente e até desligada do conflito, mas o executor sabia bem o que queria e porque cometia o horror. Mesmo nas organizações mais recentes, como IRA, ETA, Brigadas Vermelhas ou Baader--Meinhof, a finalidade era clara e os ignóbeis meios utilizados adequados ao objectivo.
Isto nega uma das mais velhas acusações, que injustamente vê os terroristas como psicopatas. Usando a violência sem propósito imediato, pareciam loucos acéfalos, matando pelo prazer de matar. Isso raramente foi verdade, porque o medo global que geravam servia sempre uma causa particular de forma segura. O terror podia parecer aleatório mas, embora cruel e infame, era mais um dos instrumentos apropriados da campanha. Se, como disse Von Clausewitz, «a guerra é a continuação da política por outros meios» (Da Guerra, 1832, I. 24), o terrorismo é um prolongamento dessa guerra.
Desde o 11 de Setembro de 2001, porém, pode dizer-se que essa realidade adquiriu novos aspectos, parecendo quebrar a razoabilidade. Qualquer que fosse o objectivo estratégico do atentado, e nunca nenhum veio a ser declarado, o resultado acabou sendo altamente negativo. O levantamento militar ocidental contra alguns Estados islâmicos dificilmente seria um efeito interessante para os perpetradores, que se sacrificaram no ataque.
Os atentados fundamentalistas dos últimos anos, se têm um impacto muito vasto, devido aos ecos que geram, parecem incluir uma perda da lógica táctica que existia nos antigos. Não apenas a vítima directa é arbitrária, como deve ser para que o medo se generalize, mas o ataque não parece servir nenhum propósito bem definido. Agride-se a sociedade moderna como um todo, em nome de uma civilização alternativa. Será que finalmente enfrentamos terroristas psicopatas?
A aparente falta de lógica das agressões fica resolvida compreendendo a posição dos que as inspiram. Ao contrário dos episódios antigos, esses grupos não estão sob ocupação ou ataque das potências que agridem. O Ocidente não tem propósitos de conquista, e os eventuais interesses económicos envolvidos seriam de benefício mútuo, ganhando muito com a paz e o progresso dessas nações. Por que razão então a Europa e os Estados Unidos são vistos como inimigos figadais?
O motivo é cultural, não político ou militar. O maior inimigo dos fundamentalistas islâmicos não é o governo norte-americano, mas o seu cinema; não são os EUA ou a União Europeia que os atingem, mas o laicismo ocidental, o seu consumismo, promiscuidade, liberdade de expressão e hábitos religiosos, familiares, de vestuário, alimentação e tantos outros. Esses são os adversários que eles abominam, precisamente por serem tão atraentes. O Ocidente é execrado porque se insinua de forma imparável na vida e costumes das populações muçulmanas, algo que esses extremistas consideram inaceitável. E reagem da única forma que sabem, gerando o terror.
Se o objectivo fica assim claro, pode perguntar-se se o meio é adequado. Por muito sangue que originem, dificilmente conseguirão inverter a sedução que a opulência ocidental tem nas populações locais. A não ser... A única forma de os terroristas terem sucesso é se os ocidentais, em reação aos ataques, restringirem a liberdade, abandonarem a tolerância, impuserem restrições extremistas. Nunca esqueçamos que esta luta é cultural. Só a venceremos com serenidade e elevação.
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