Diário de Notícias, 080724
Maria José Nogueira Pinto
jurista
Temos tanta informação mas não sabemos a verdade!" Esta exclamação de García Márquez, no seu último livro, fez-me lembrar a conversa que tive com Maluda sobre o deus Janus. Janus é um deus com duas cabeças. Uma representa o interior e outra o exterior. O interior é a segurança, a relação familiar com as pessoas e as coisas, o conhecimento certo dos espaços e das distâncias, o equilíbrio. Mas pode transformar-se num isolamento estéril e autista, por falta de referência, relação e alimento. O exterior é o desconhecido, o imprevisível, por vezes o hostil, mas é a vocação da vida e o caminho da percepção do real e, em muitos casos, de uma profícua vida interior. Ao fim e ao cabo, Janus, com a sua bicefalia, expressa a antiquíssima questão das partes e do relacionamento entre o mundo interior e o mundo exterior. Em termos arquitectónicos, a janela (palavra cuja raiz é janus) traduz esta ambivalência com que todos nós nascemos, …