Tratar o destino com os pés

Alberto Gonçalves
DN 20160703

Até agora, vi a maioria dos jogos da dita selecção nacional no campeonato em curso. Ao estilo (digamos) apresentado, os comentadores chamam "jogo de paciência". Se se referem à paciência necessária para o espectador aturar aquilo, acertam em cheio: o próprio Job tentaria cortar os pulsos após vinte ou trinta minutos de futebol tão lento e destrambelhado. Embora os jogadores me pareçam fracotes, e o "melhor do mundo" fora de forma, fica a impressão de que, entretida a reformular penteados ou a estreitar laços com a "diáspora", a equipa não treinou nada, excepto a estratégia para adormecer adversários ainda menos dotados (os quais são prévia e constantemente considerados prodigiosos de modo a alimentar o patriotismo). Não tem corrido mal: Portugal não perdeu um jogo. Acontece que também não ganhou nenhum, apenas seguindo em frente graças às sucessivas atenuantes nos regulamentos da bola, da "repescagem" aos "penáltis", passando pelo "prolongamento". É isto um drama? Nem por sombras. Como se diz no jargão, é futebol, e o futebol, apesar da histeria alusiva, é uma suprema irrelevância.
Dramáticas, ou, vá lá, relevantes, são as legitimações subjacentes. Em embaraçosas conferências de imprensa, futebolistas e treinador juram que o essencial é vencer de qualquer forma, mesmo, presumo, que esta inclua o desempate por moeda ao ar, o suborno ou o tiroteio nos balneários. Nas televisões, "especialistas" subscrevem o método. Nas tribunas, as excelências que alegadamente nos governam e representam (mas que de facto vivem em estádios franceses) aplaudem-no. Nas ruas, o povo entra em júbilo frenético a cada eliminatória humilhante. "Somos os maiores", berra-se sem ironia.
No futebol, talvez se conquistem glórias sem mérito. Na vida real, não é tão provável. Para desgraça de todos nós, somos propensos a estender à vida real a jovialidade com que se troca trabalho, rigor e exigência pela hipótese de um triunfo inútil e, fora dos relvados, imaginário. Queremos bons salários sem produtividade, prosperidade sem esforço, riqueza com dinheiro alemão. Queremos, em suma, as vantagens; dispensamos os aborrecimentos intermédios e necessários. Para não recuar muito, eis a história da recente "austeridade": sem nunca se perceber o respectivo significado, começou por celebrar-se os governos que a tornaram inevitável, abominou-se o governo que a aplicou e voltou a festejar-se a nomenclatura de borlistas que fingiu exterminá-la por decreto, quando o extermínio em causa será na verdade o do país enquanto nação residualmente remediada e soberana. No futebol, cantando e rindo e mancando e aproveitando artimanhas, pode chegar-se à final. No mundo que importa, chega-se ao fim. Não admira que o dr. Costa e o prof. Marcelo se empenhem em não se distinguir dos iludidos adeptos comuns: a ilusão é o ofício deles. Aceitá-la é o nosso.
Na quinta-feira, imediatamente antes do penálti decisivo, o locutor da RTP afirmava, com típica inconsciência, que o sr. Quaresma tinha "o destino de um país nos pés". O destino não tardou a levar um chuto. Portugal. Portugal. Portugal. Pobre Portugal.
Domingo, 26 de Junho
Convenções
Acho interessantíssimo que o Bloco de Esquerda agite as bandeiras do arco-íris e do combate à violência doméstica e, na sua convenção, aplauda de pé (cito os jornais) um Movimento pelos Direitos do Povo Palestino. Não comento o tratamento dispensado pelo "povo palestino" a homossexuais e mulheres. Limito-me a sugerir que, em convenções futuras, o BE organize um churrasco de vitela para criticar as touradas e proteste aos tiros o acesso de civis a armas de fogo.
Porém, o grande momento da pândega "bloquista" foi a ameaça de referendarmos a "Europa" caso esta nos castigue por causa do défice. Para facilidade de conversa, admita-se que a dona Catarina fala pelo governo (o que não é uma hipótese absurda), que o governo possui a última palavra em matérias assim (desde que seja para o lado "correcto", a sagrada Constituição aldraba-se sem problemas) e que o presidente da República permitiria a brincadeira (depois da dança étnica e dos comentários da bola, o prof. Marcelo já provou ser um brincalhão). Ultrapassadas estas irrelevâncias, qual seria o impacto de uma chantagem que no fundo consiste em informar o credor que não se volta a pedir-lhe dinheiro? Qual é a parte do desastre grego que a dona Catarina não percebeu? Como se imagina, Angela Merkel não voltaria a dormir descansada - de tanto rir. Até o PCP se riu.
E eu sinto-me ridículo só de escrever a propósito. Afinal, é esse o mérito (digamos) do BE: pôr as pessoas a discutir "ideias" que antigamente não se toleravam a crianças com mais de 7 anos. Ouvir o bando é o mesmo que promover um seminário sobre física de partículas moderado por Isabel Alçada e realizado na sala de actividades da creche. É gente que diz o que sabe e não sabe o que diz. Enquanto terapia de grupo, parece-me excelente. Enquanto outra coisa qualquer, parece-me uma tristeza pegada.
É triste o jornalismo que leva aquilo a sério e são tristes os eleitores que levam aquilo a sério. E é tristíssimo um governo que por desmesurado oportunismo e desmesurada irresponsabilidade obedece a uma anedota imberbe a que apenas por convenção se pode chamar partido.
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