Voltou o condicionamento industrial

Eduardo Cintra Torres 
Correio da manhã 03.07.2016 

O PS continua a querer controlar o panorama audiovisual onde lhe for possível. 

No arranque da TDT conjugaram-se os interesses dos generalistas e das plataformas de cabo para que o número de canais fosse o menor possível. O cabo, por trágica ironia, foi o principal beneficiário da modernização da TV de acesso livre: chega hoje a 87% dos lares, muito à custa desse processo inicial e da péssima qualidade técnica da TDT. O actual processo de alargamento da TDT pode ser visto de quatro ângulos, todos ligados. Primeiro, o da política geral e dos princípios. Tecnicamente, a TDT podia e pode ter mais canais. Portanto, o alargamento é bem-vindo. Deveria ser o regulador a tratar do processo, mas aqui entra o segundo ângulo: a política concreta. O PS continua a querer controlar o panorama audiovisual onde lhe for possível. Está no poder, e os seus aliados são igualmente estatistas. PS, BE e PCP decidem unidos no parlamento. Decisão puramente política: não houve estudos técnicos (porquê quatro canais e não dois, seis ou oito?) nem financeiros (quanto nos custam mais canais da RTP na TDT?). A proposta do governo e aliados é tipicamente estatista, imposta ao país e ao mercado: querem quatro novos canais para dar dois à RTP, sendo os outros, está-se a ver, o "preço a pagar" por aqueles, migalhas para privados, e num futuro incerto não definido na lei. Entra o terceiro ângulo: a liberdade e a concorrência. O objectivo do governo e aliados é favorecer o operador do Estado (que acham seu) e limitar a entrada de privados na TDT. É a mesma política do governo fascista de Salazar: o condicionamento industrial, para favorecer a elite que diz ámen. À porta fechada, a estratégia do governo e aliados não é abrir a TDT mas antes como abrir o mínimo possível e só para quem eles querem. A proposta basicamente limita as liberdades. Haverá pela certa processos nos tribunais portugueses e da UE. Falta o quarto ângulo: o dinheiro. Um canal só de cabo prescinde de receitas pagas pelos operadores de cabo se for para a TDT e não tem qualquer garantia de as recuperar em publicidade na TDT, onde paga para estar. Os privados fizeram essas contas no arranque da TDT e decerto agora. O dinheiro é deles. No caso da RTP, o dinheiro é nosso, mas quem faz dele o que quer são governo, parlamento e RTP. Se a audiência da RTP 3 e da RTP Memória for idêntica na TDT à que é no cabo, a primeira passará de 14 900 espectadores em média para 17 300; a Memória passará de 4800 para 5600. Isto é, mantêm-se em cerca de 0,2% e 0,1% de audiência. Mas a RTP pagará milhões de euros anuais. Vai pela certa haver aumento da taxa. Só temos uma certeza: a factura será grande e paga por nós. ----- A ver vamos: Audiências - A RTP pouco recupera com a Selecção  No primeiro semestre, as audiências mantiveram o padrão: somados, os dois canais públicos têm menos audiência (15,4%) do que a SIC (17,2%) ou a TVI (21,7%). Com o Euro, a RTP 1 aproximou-se da SIC em Junho, mas não conseguiu transferir o efeito futebol para a RTP 3. O Euro impulsionou um pouco o conjunto dos generalistas, mas a queda no cabo em Junho deixa-o mesmo assim acima dos seus valores no primeiro trimestre. Nos dias em que transmite jogos da Selecção, a RTP 1 tem excelentes audiências, mas houve dias de Junho em que teve menos de 10%. Os concorrentes procuram compensar o efeito Euro na RTP com muitos directos de França e de diversas cidades portuguesas e também com transmissões de futebol (Copa América) e outros desportos. Deste modo, não será com o Euro que a RTP 1 recupera relevância popular este ano. Em Junho, teve a mesma audiência de Março de 2015. O poder político está contente com a programação; o povo vê-a cada vez menos. Já Agora: Olhar para os EUA para ver o futuro da TV Metade dos lares americanos já tem acesso a operadores de televisão pela Internet, como a Netflix, a Hulu e a Amazon Prime. Em simultâneo, cresceu o tempo gasto no telemóvel, incluindo com televisão, baixou o tempo dedicado a ver TV "em directo" e diminuiu o número de assinantes de cabo. Por cá, a evolução será mais lenta, mas o futuro está à vista.
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