sábado, 30 de julho de 2016

Jovens com opinião

Inês Teotónio Pereira
DN 20170730

Alguns dos meus filhos estão a ficar gente: têm opiniões. Estão a entrar naquela idade em que já não perguntam, debitam o que lhes vai na alma. Não sabem muita coisa sobre quase nada por falta de tempo, mas falam de tudo. Têm opinião sobre terrorismo, religião, esquerda e direita, sobre profissões, música, o que está bem e mal em casa, no país ou no Médio Oriente. E têm a certeza absoluta. São opinativos fundamentalistas. Funcionam com base no "porque sim" ou porque viram no YouTube. E não há teoria, realidade ou factos que os afastem da sua verdade.
Pais e mães mais experientes já me tinham avisado de que esta fase iria chegar e que, segundo eles, "era muita giro". Pois não é. Passar por isto é o mesmo que ouvir os profissionais do comentário na televisão e não poder mudar de canal. É irritante. É o mesmo que jantar com a SIC Notícias em bloco. Com todos ao mesmo tempo e todos os dias. E o pior é que não os podemos insultar como fazemos com os profissionais a sério antes de carregarmos no botão que os faz desaparecer. Não, com os meus filhos tenho mesmo de ficar a ouvir e, diz o bom senso, deixá-los exprimir a sua opinião. Bolas, nunca pensei que deixar alguém exprimir a sua opinião fosse tão doloroso. Mas eu deixo, juro. Só que sinto que estou claramente em desvantagem. Enquanto eu, para fazer valer o meu ponto de vista, tenho de dar lições de história, citar autores, falar de números e de filosofia, já eles respondem com o YouTube, repetem o que um amigo lhes disse ou citam uma coisa que ouviram "já não me lembro onde". Impossível rebater. São evidências que lhes fazem sentido enquanto as minhas só lhes dão trabalho. Sou eu contra todas as redes sociais do mundo, os canais de notícias e as maiores palermices que se dizem por aí. Giro? Pois, experimentem explicar a um adolescente, que tem como sonho ir tirar fotografias para a Austrália e como ídolos John Lennon e o Papa Francisco, qual é a ligação entre o terrorismo e o islão e depois digam-me se é giro. Não é. É doloroso e difícil respeitar a opinião e conversar seriamente com alguém que fala do Iraque sem nunca ter visto e ouvido Artur Albarran em direto de Bagdad. É por isso que gosto muito mais de jantar com os meus outros filhos que só me fazem perguntas. São de longe os mais sensatos.
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