sexta-feira, 22 de julho de 2016

Humanismo, Transhumanismo e barrigas de aluguer

Isilda Pegado
Voz da Verdade, 2016.07.10

1 – Vivemos durante décadas a ouvir a defesa de uma cultura Humanista. O Homem, a sua natureza, dignidade e direitos fundamentais universais, eram o caminho lógico da cultura do nosso tempo. Toda a organização social se movia para esta cultura, que tendo uma raiz no Cristianismo e nas culturas Gregas e Romana prosperou desde então até aos nossos dias.
2 – Porém, nos últimos anos do século XX e neste início de século vemos claudicar aquela cultura e nascer uma corrente a que alguns já chamam o “Transhumanismo”. O Homem tal como o conhecemos não deriva de uma natureza. O “homem” é aquilo que o Poder define como tal. Define-o a partir de correntes de opinião, que se afirmam na “opinião publicada” e que de forma gradual se vai chamando a “mentalidade dominante”.
3 – A criança não é filha de um homem e de uma mulher, mas bastará ser filho de uma mulher. A criança assim nascida é privada da sua identidade genética e hereditária. Porque o Poder assim o ditou (última lei de alteração à PMA).
A criança não tem um pai e uma mãe, mas tem duas ou três mães (a mãe que dá o óvulo, a mãe gestante e a mãe social – nas barrigas de aluguer). Quando tiver 14 ou 15 anos procurará a verdade da sua identidade… Que fará?
4 – Por toda a Europa existe uma forte corrente de opinião contra a maternidade de substituição (melhor dito “barriga de aluguer”). Na grande maioria são mulheres feministas que se opõem a esta mercantilização das mulheres e das crianças. É a Dignidade da mulher que está em causa. Nenhum ser humano pode ser instrumento de outro.
5 – Para o Transhumanismo, nada impede que uma mulher seja “portadora” ou de “substituição”. Invocam-se razões de afecto para legitimar tal lei. Mas, é só o afecto de alguns, porque as razões de afecto de outros são esquecidas.
A mulher que assina um contrato de maternidade de substituição, que durante 9 meses gera e cria afectos com uma criança, vê arrancar-lhe dos braços aquele filho (pelo senhor Guarda da GNR) porque a lei é para ser cumprida e, os contratos também.
6 – Disse-nos um amigo que, em França, o veto do Presidente da República Português ao diploma “maternidade de substituição” foi lido como uma grande vitória das feministas portuguesas… Estou completamente de acordo. Não se defende as mulheres fazendo de algumas mulheres, instrumento de outras.
Nem se invoque relações de família entre estas mulheres, porque aí a dependência é ainda maior e mais violenta, na relação futura entre a criança e as duas mães.
7 – O Transhumanismo é, por isso, uma orientação tão radical que ninguém pode prever as consequências ontológicas, antropológicas e sociais que estes actos podem vir a produzir. Há algum partido político ou algum deputado que se sinta legitimado para fazer tamanha modificação? Creio bem que não. Esta é uma matéria estruturante da Sociedade.
8 – Corre neste momento uma Petição – “Por um Referendo sobre a Gestação de Substituição” (no site da Petição Pública) que pede um Referendo à lei da PMA que agora se pretende alterar. O Povo desconhece o que se está a passar no Parlamento. Não foi feito qualquer debate. Não consta dos programas eleitorais dos partidos políticos (excepto do BE). E, contudo, trata-se de matéria estruturante da Sociedade e do Homem. Que rumo queremos tomar?
9 – Que dignidade humana há na mulher que é “substituta” de outra, num acto tão íntimo e marcante como é a maternidade? Agora legisla-se para casos pontuais… depois a porta está aberta. Não deve o Povo conhecer e decidir o seu Futuro?
Humanos ou Transhumanos?
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