segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Em defesa do bom jornalismo e da liberdade cultural

LUÍS CAPUCHA Observador 01/08/2016

Com pouco esforço, facilmente poderia um estagiário constatar que os dados avançados pelo PAN são falsos, pura mistificação e mentira demagógica.

Resolveu o redator do Editorial de 22 de julho do PÚBLICO alinhar com os argumentos anti-taurinos cujas materializações numa série de projetos de Lei foram chumbados recentemente na Assembleia da República, por uma maioria de deputados superior a 80%.
Sem reflexão ou justificação, o Editorial acusa os Partidos que chumbaram esses projetos de se moverem em função de meros interesses clientelares, entrando dessa forma numa linha de argumentação perigosamente populista. Melhor seria terem-se informado, como devem fazer os jornalistas e, por maioria de razão, as direções de jornais, sobre os fundamentos dos factos que tomam por verdades, quando na realidade não passam de puras falsidades. Como cidadãos, os redatores de Editoriais do PÚBLICO podem ter a opinião que entendem, incluindo sobre ideias erradas nos planos moral e ético, como a que se esconde atrás da ideia de “direitos dos animais” (embora ninguém explique quais são os correspondentes deveres). Mas não têm o direito de se servirem do cargo para emitir meras opiniões assentes em puros e simples preconceitos. Passo a especificar aquilo que a direção do PÚBLICO deveria ter mandado investigar (ou ter procurado o contraditório) antes de cair nos erros em que cai e de alinhar pelas posições em que alinhou. É legítimo que a direção de um jornal possua uma linha editorial que toma partido num assunto socialmente controverso. Mas isso apenas se explicar aos leitores os diversos argumentos em debate e se antes tentar aferir a verosimilhança dos mesmos.
Diz-se no referido Editorial que “quando um pouco por toda a parte tendências de comportamento e movimentos cívicos evidenciam uma crescente sensibilização aos direitos dos animais, a Assembleia da República mostra o quanto está distante dessas preocupações e desses avanços civilizacionais”. Estranho civismo este que esquece o mais importante: um pouco por todo o lado o que cresce é a violência, o autoritarismo, o ódio, o terrorismo, a injustiça social e económica, o recuo dos direitos humanos, as agressões ao ambiente. O recuo do humanismo, o avanço da misantropia e a transferência dos afetos para com os nossos semelhantes para os afetos para com os animais de companhia não fará parte do ambiente cultural em que vingam todos estes grande problemas humanos?
Diz-se depois que o projeto de Lei do PAN sobre financiamento à tauromaquia é o “mais bem fundamentado, com argumentos e muitos dados por certo desconhecidos da maioria dos portugueses”, e que é “…doloroso transcrever parte da descrição pormenorizada feita no documento do PAN sobre os efeitos que a lide taurina provoca num animal”. Com pouco esforço, facilmente poderia um estagiário da Redação constatar que os dados avançados pelo PAN são falsos, pura mistificação e mentira demagógica. Quer quanto aos dinheiros, quer quanto ao ritual de que o Toiro Bravo é o centro. Já é costume esse tipo de propaganda completamente indiferente à verdade dos factos e aos resultados da investigação científica por parte dos animalistas, mas fica mal a jornalistas reproduzir sem critério essa propaganda.
Não falta depois o vitupério contra os vossos concidadãos que gostam de toiros. Não é a “…exposição nua e crua da tortura animal” que os anima. São valores profundamente inscritos na cultura tauromáquica e que integram a sua identidade cultural. O redator do Editorial em causa não é melhor cidadão do que nós, e não entendemos a presunção de superioridade para connosco que transparece do texto. Se não compreende nem conhece a tauromaquia e os seus valores, nem quer compreender ou conhecer, respeito essa opção. Mas nesse caso não julgue o que não entende, porque a ignorância não é boa conselheira.
Por fim, fecha a parte em apreço do Editorial com uma pergunta: “Ou será por acaso que os quatro partidos apoiantes das touradas são os únicos que dispõem de corte camarária?” Pergunto à Direção do PÚBLICO se pode pensar na resposta a outra pergunta: não será que os partidos sem presença nos municípios não estão nessa situação porque são incapazes de sair dos meios elitistas de que são originários para tentar compreender, de forma próxima e vivida, os sentimentos dos portugueses, naquilo que eles têm de especificamente local?
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