sábado, 13 de agosto de 2016

A espera do PSD

Pedro Rodrigues
Jornal de Notícias 11 Agosto 2016 às 00:02

As últimas eleições legislativas conduziram à reconfiguração do espaço político em Portugal. Não só o partido mais votado não teve condições para formar Governo, como forças políticas que se consideravam fora do arco da governabilidade se apresentaram como indispensáveis para a viabilização de um Governo de Esquerda. O pensamento político convencional apressou-se a sentenciar a esperança de vida desta nova configuração governativa, ora considerando que a sua compatibilização com as exigências europeias conduziriam à sua falência, ora considerando que as contradições insanáveis (fundadas na tradição, no percurso e no discurso) dos três partidos políticos que suportam o Governo determinariam a sua rápida dissolução. A verdade é que se a geringonça não cumprir a sua normal esperança de vida (uma legislatura), tal não será determinado por nenhuma das razões apontadas.
António Costa conhece bem o percurso histórico do PCP e está bem consciente da sua função na sociedade portuguesa. É claro para o líder dos socialistas que esta e aquele não se cumprem nem estando no Governo, nem suportando um Governo liderado pelo PS com o apoio do BE. Mas, sabe bem também António Costa que o BE cumpriu e esgotou o seu papel de força de defesa de políticas de costumes e de consciência. Sabe bem António Costa que o BE nos seus anos de vida já ultrapassou a sua plena função de cumprimento da política negativa da contestação. Enquanto o PCP tem um eleitorado historicamente consolidado e assente na sua força e tradição autárquica e sindical, o Bloco esgotou a sua agenda e a sobrevivência na contestação reservar-lhes-á o caminho da insignificância política. E António Costa sabe disso bem. Governar com a dificuldade de interpretação e de convivência com o PCP não é tarefa comparável com a de governar com a convivência histriónica do BE, que em privado apenas se centra no acessório e para o exterior anuncia o sonoro mas vazio referendo europeu.
O PS iniciou a legislatura repondo rendimentos aos portugueses consciente do que isso implica na construção das expetativas eleitorais, mas também com a perceção das dificuldades económicas evidentes que enfrentaremos num futuro próximo enquanto comunidade e entretanto provados pela retração da economia, do aumento do desemprego e da contração do investimento externo. Costa, consciente dessas dificuldades e da evidência que o BE apenas procura ser o CDS da Esquerda ganhando força eleitoral para influenciar as políticas governativas do PS, iniciou já a construção de uma narrativa que pretende apenas caminhar para eleições legislativas antecipadas e expulsar o PCP do barco da governação. Com o BE absolutamente determinado em tornar-se no garante de futuras maiorias absolutas do PS e com o PSD pacientemente esperando que o fruto caia de podre, António Costa determinará o timing eleitoral e a esperança de vida da sua geringonça.
As últimas eleições legislativas não só determinaram por isso uma reconfiguração do espaço político em Portugal como conduziram o PSD a uma posição paradoxal. Se é verdade que Passos Coelho ganhou as últimas eleições após uma governação extraordinariamente complexa, é também verdade que se demitiu da sua função de principal partido da oposição marcando a agenda política, apontando o caminho do futuro e da esperança, optando ao invés por se limitar a aguardar que a situação política e económica se degrade. A estratégia apontada apenas pode ser compreendida num contexto em que Passos Coelho e o PSD estejam apostados, tal como Durão Barroso demonstrou estar em 2001, em derrotar clamorosamente o PS nas próximas eleições autárquicas conquistando os principais municípios do país. A opção do PSD e de Passos Coelho de apenas aguardar só se pode justificar nesses termos. Se assim não for, o PSD e Passos Coelho estarão a deixar nas mãos de António Costa o futuro próximo da governação do nosso país sustentado no apoio do novo CDS da Esquerda, o Bloco de Esquerda. E esse não é o legado político que Sá Carneiro deixou ao PSD, nem é certamente o que o nosso país espera de um partido com a vocação reformista e humanista como a que o Partido Social Democrata tem demonstrado ao longo da sua história...
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