sábado, 27 de agosto de 2016

É óbvio que eles não estão arrependidos

Rui Ramos
Observador 26/8/2016

Catarina Martins não está arrependida, tal como Jerónimo de Sousa não está arrependido. Não têm uma única razão para isso. A actual maioria parlamentar foi a maior vitória política do PCP e do BE.

Catarina Martins disse algures que todos os dias se arrependia da “geringonça”, e a imprensa comoveu-se. Sem razão. Catarina Martins não está arrependida, tal como Jerónimo de Sousa não está arrependido. Não têm uma única razão para isso. A actual maioria parlamentar corresponde ao que o PCP e os partidos que depois engendraram o Bloco de Esquerda propõem desde 1976. Foi a sua maior vitória política em quarenta anos.
Em 1975, contra a influência militar do PCP e da “extrema-esquerda”, formou-se em Portugal uma maioria a favor de uma democracia de tipo ocidental, no quadro da NATO e da integração europeia. Essa maioria era composta à direita pelo PSD e CDS, e à esquerda pelo PS. Perante esta maioria democrática, o PCP e depois a extrema-esquerda desenvolveram duas tácticas: uma consistiu em salvaguardar a ascendência militar no regime, colando-se ao Conselho da Revolução e ao presidente Eanes, apesar do papel de Eanes na derrota do militarismo pró-comunista em 1975; outra, foi a de separar o PS da maioria democrática, aliciando-o para uma “maioria de esquerda”.
Foi esta segunda táctica que finalmente resultou no Outono de 2015. O PCP e o BE jaziam então numa situação crítica. A contestação à “austeridade” não os fizera crescer como o Syriza na Grécia ou o Podemos em Espanha. O sindicalismo comunista declinava. Mas se as razões para uma aliança eram boas, as condições foram ainda melhores: o PCP e o BE não tiveram de renegar nada, e precisaram apenas de se calar sobre alguns assuntos. Em contrapartida, o PCP salvou os seus sindicatos e voltou a controlar um ministério, e o BE tem agora um juiz no Tribunal Constitucional.
Perante os partidos da esquerda democrática, os caminhos dos revolucionários são variados. Na Grécia e na Espanha, tentaram substituí-los. Na Grã-Bretanha, preferiram tomar por dentro o Partido Trabalhista. Em Portugal, colaram-se ao PS, aproveitando a derrota eleitoral de António Costa. Conseguiram assim, até ver, começar a separar o PS da maioria democrática. O PS partilha hoje a visão que o PCP e o BE têm do PSD e do CDS, como partidos a excluir. É como se a Frente Nacional, em França, tivesse destruído a “maioria republicana” que até agora a tem impedido, não só de chegar ao governo, mas até ao parlamento.
Porque é que tanta gente admitiu o arrependimento de Martins? Porque ainda é corrente a ideia do PCP e do BE como “partidos de protesto”, cheios de pruridos perante o poder. É um equívoco. O PCP e o BE têm sido partidos de protesto porque os eleitores e, até agora, os outros partidos, não lhes têm deixado ser outra coisa. Mas o protesto é circunstancial. A sua referência — do PCP e dos partidos que compõem o BE — é a tradição leninista, que fez do poder a questão central para os revolucionários. Tudo lhes foi sempre teoricamente permitido para infiltrarem o Estado. Nada no que Sousa ou Martins fizeram envergonharia os seus mestres soviéticos.
Tivemos coligações de governo de partidos muitos alinhados em cena, mas que ameaçaram frequentemente quebrar nos bastidores, como a de Passos Coelho em Julho de 2013. O actual arranjo parlamentar funciona de outra maneira: ruídos em palco, entendimento nos camarins. Nenhum arrependimento vai desmontar a geringonça. Para o país, um governo dependente do PCP e do BE significa que a austeridade continua, porque não lhes interessa renunciar ao dinheiro do BCE, mas que nenhuma das mudanças de contexto, daquelas que poderiam animar a economia, será efectuada. Mas disso é que eles certamente não estão arrependidos.
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