quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Democracia em bruto

João César das Neves
DN 20160825
O sistema democrático norte-americano é impressionante. Não é preciso admirá-lo, ou sequer gostar dele para o achar impressionante. Uma coisa destas tinha de existir, mesmo que só para se verem as qualidades e os defeitos. Ela é impressionante quando funciona bem e quando funciona mal. Ambas as situações são visíveis nas eleições deste ano.
A origem da turbulência é óbvia e genérica. As magnas perturbações do nosso tempo em termos geopolíticos, financeiros e tecnológicos criam descontentamento generalizado em todo o mundo desenvolvido. Incomodadas com as novidades, as populações favorecem o empolamento das forças extremistas, de direita ou de esquerda.
O choque é comum, mas cada sociedade lida com ele à sua maneira. Nos EUA a questão adquire um alvoroço e uma profundidade únicos. A partir de agora, quando os dois candidatos se defrontam diante do povo, a situação segue o padrão normal. Mas nos longos meses das primárias, procedimento peculiar e próprio dos Estados Unidos, viu-se bem a gravidade do momento.
O Partido Democrata mostrou como, debaixo de intensa pressão, as coisas podem correr bem. Havia um candidato destacado, que perdera da última vez e se apresentava de novo com força. Hillary Clinton não é uma boa candidata, mas está longe de ser uma má candidata. Tem vasta experiência, grande inteligência e o atractivo de ser a primeira mulher apresentada por qualquer dos grandes partidos. Seria sempre uma aposta sólida. Há oito anos já era favorita, mas aconteceu o inesperado: um jovem e inexperiente senador capturou a imaginação nacional e roubou-lhe a eleição. O regresso após longa espera acrescentou persistência às qualidades da ex-primeira-dama, mas também lhe trouxe banalização. Quando parecia ter a coroação incontestada, um velho e experiente senador surgiu com uma plataforma de extrema-esquerda (à americana, muito diferente da europeia) e tudo pareceu repetir-se. A ironia da situação é que em certas dimensões não podia haver distância maior entre Obama e Sanders, mesmo se ambos vêm da ala esquerda.
A vantagem do desafio é que fez funcionar o debate e trouxe interesse à campanha. Podia ter corrido muito mal, fracturando o partido e criando animosidade inconciliável, sobretudo quando Sanders recusou declinar mesmo diante da derrota óbvia. O suspense permanecia ainda na convenção, de 25 a 28 de Julho em Filadélfia, mas o sistema funcionou. O derrotado apoiou a vencedora, que agora tem todo o partido atrás de si. Foi um sucesso impressionante.
O impressionante fracasso aconteceu no Partido Republicano. O drama é precisamente o mesmo do outro lado; mas a resposta foi um fiasco. E o fracasso não se chama Donald Trump; chama-se Partido Republicano. Trump é apenas o corolário. Quando uma campanha se transforma numa luta de taberna, não admira a vitória de um arruaceiro. O partido está na oposição há oito anos e, como lhe competia, teve as vitórias intercalares em 2010 e 2014, até mantendo o domínio da Câmara no ano da vitória democrata de 2012. Esta situação deveria ter gerado um candidato forte, como acontecera em todas as últimas eleições presidenciais. Em vez disso surgiram 17 grandes candidatos, boa parte deles com excelentes referências, que evidentemente se anulavam uns aos outros. Quanto mais mostravam as suas qualidades, mais confusos os eleitores ficavam. O resultado foi ganhar o pretendente que não tinha nenhuma vantagem, a não ser a de mostrar que evidentemente não a tinha. Sem experiência, sem sensatez, com um passado vergonhoso, a única excelência de Trump era ser disparatado. O que se mostra sinistramente atraente em tempos de irritação.
Lançando relutantemente o seu candidato na Convenção de 18 a 21 de Julho em Cleveland, o partido atingiu um dos pontos mais baixos da sua história. A desconfiança entre Trump e a máquina é recíproca e palpável. Parece que o melhor cenário para todos os envolvidos será uma fragorosa derrota em Novembro. Qualquer alternativa implica um doido a sabotar o aparelho no horizonte previsível. Uma vitória seria um pesadelo inconcebível para a América, para o mundo, mas sobretudo para o partido que o gerou.
Isto só pode acontecer neste sistema. Aliás, o próprio Trump demonstra a solidez do regime, pela sua candidatura falhada em 2000 fora dos partidos tradicionais. Em qualquer outro país, uma situação tão extrema implicaria quebra das regras, violência ou revolução. Aqui, tudo segue como sempre, com os mesmos procedimentos, o alvoroço e a profundidade habituais. Até na beira do abismo.
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