quinta-feira, 25 de agosto de 2016

‘Mediático não é roçar mato, é ter um avião a lançar calda laranja para cima das chamas’

MARTA CERQUEIRA
ionline 25/08/2016 11:12

O mea culpa de Ascenso Simões fez com que se voltasse a falar do Plano Nacional de Defesa da Floresta, de 2006: o ex-secretário de Estado de António Costa admitiu, numa tese  de mestrado recente, que foi um erro não se ter seguido a reforma que apostava na prevenção dos fogos. O coordenador técnico da equipa que elaborou o plano explica ao SOL que isso implicava um custo equivalente a três quilómetros de autoestrada por ano.
Foi preciso um cenário como o da Madeira para relembrar um plano feito há 10 anos?
Acredito que tenha contribuído bastante. O plano foi feito em reação aos anos terríveis de 2003 e 2004, desde aí não tinha havido um episódio tão concentrado como agora. A área urbana afetada na Madeira preocupa mais as pessoas e chama mais a atenção para a necessidade de repensar a situação e, nesse contexto, houve quem se tivesse lembrado que há dez anos foi publicado um  plano que só bastante parcialmente foi executado.
O que é que foi posto em prática?
Foi feito algum trabalho de prevenção, com a criação de faixas onde se reduz a quantidade de vegetação em algumas zonas. Além disso, durante algum tempo, foram criadas brigadas de sapadores mais especializados no combate ao fogo florestal e no trabalho de especialistas no combate para estudar o comportamento do fogo. Mas, com as constantes mudanças administrativas e ministeriais, algumas dessas iniciativas foram sendo desativadas.
O que ficou por fazer?
A criação de um organismo novo e que tinha funções verticais, ou seja, ia desde fazer trabalhos de silvicultura de prevenção, de abertura das tais faixas de combustível reduzido, a tarefas de vigilância. Fora da época de incêndios, era uma estrutura vocacionada para ir fazendo o trabalho de gestão da floresta para evitar fogos nos meses críticos.
Por que razão esse grupo não foi criado?
Não conheço as razões políticas, mas a proposta era que esse grupo assumisse competências e orçamentos que estavam alocados a outros organismos. Imagino que tenha havido uma oposição à mudança por parte desses organismos e o Governo decidiu não abrir guerras.
O atual Governo anunciou a criação de um grupo de trabalho para a reforma da floresta. Terá o vosso como base?
Não sei. Mas era bom que relessem o que foi escrito na altura, apesar da necessidade da sua atualização.
O ministro da Agricultura diz que já foi feita uma primeira apreciação do plano, a partir da qual decidirá sobre as medidas a manter. Teria que ser remodelado?
À velocidade com que a realidade muda, é impossível permanecer válido na sua totalidade. Mas é uma boa base de trabalho que não deve ser ignorada.
O que estava previsto?
Propúnhamos uma redução do número de fogos com área superior a um hectare e o fim dos incêndios de áreas superiores a mil hectares. 
Essas metas foram estipuladas com base em que dados?
Com base em dados estatísticos das últimas décadas, além de trabalho de campo.
Eram metas concretizáveis?
Claro que sim, não eram números tirados de uma cartola de mágico. Era ambicioso, tenho essa noção, mesmo em termos de custos.
Falamos de que valores?
Falar em dezenas de milhões de euros não diz nada às pessoas, prefiro traduzir esses valores em coisas práticas. O acréscimo de custos era o equivalente a três quilómetros de autoestrada por ano ou a meio avião Canadair. Mas a questão principal não era o acréscimo de custos, mas sim aquela que se mantém ainda hoje: a divisão entre o que é gasto no combate, face aos gastos na prevenção.
Qual é o rácio atual entre combate versus prevenção?
Deve gastar-se cerca de quatro a cinco vezes mais em combate do que em prevenção.
Mas está provado que o custo com o combate é maior.
O raciocínio fundamental é o seguinte: se se gastar mais em prevenção, a dificuldade do combate vai ser menor e, portanto, os gastos nessa fase serão reduzidos. A lógica nunca é substituir o combate pela prevenção. O combate é essencial sobretudo em situações como as deste ano, nas quais o fogo atingiu zonas urbanas.
Apesar do plano prever uma aposta na prevenção, foi no combate que o Governo então em funções apostou, com a compra de meios aéreos de combate aos incêndios.
Claramente. Aliás, os donos do problema passaram a ser o Ministério da Administração Interna e os bombeiros. O grande problema é que o fogo é visto como um problema de proteção civil e isso é uma visão muito imediatista. Por exemplo, fala-se tanto em fogos florestais quando apenas um terço do que arde é floresta. Também são afetadas áreas agrícolas, mas mais de metade do que arde é mato e pastagens, muitas vezes relacionado com práticas tradicionais. É urgente que se enquadre e se discipline essas atividades, com vigilância e punição – até porque, atenção, o fogo não é uma anomalia, nem uma coisa a suprimir no espaço rural. Há atividades agrícolas e de criação de gado para as quais o fogo é uma ferramenta de trabalho. Pode e deve ser usado de forma disciplinada, o que não é admissível são estes abusos a que temos assistido. 
Mas já que houve uma aposta no combate, acha que pelo menos isso melhorou nos últimos dez anos?
Tenho ideia que sim, nomeadamente nas comunicações e coordenação de equipas, mesmo em eventos de maior duração. No entanto, sempre que acontecem situações meteorológicas como as deste ano, com tempo quente e ventos fortes, aí é que se verificam os limites do combate e é nesses casos que a capacidade de resposta se dispersa e torna-se ineficaz. 
Em média, apesar de termos quatro meses de verão – contando de junho a setembro –, mais de 80% dos incêndios concentram-se em dez, 15 dias. Do meu ponto de vista, este é o argumento mais forte que se pode arranjar para chamar a atenção para a importância da prevenção, até porque estes picos de temperatura vão ser cada vez mais frequentes e ter uma capacidade de combate disponível o verão inteiro para estas atividades seria incomportavelmente caro. O combate tem que ser concentrado nessas duas semanas críticas, a prevenção podemos fazê-la ao longo de todo o ano.
Mas o ministro da Agricultura garante que não há sistema preventivo que chegue para o número de ignições como as deste ano. É verdade?
Se uma paisagem estiver bem gerida e bem tratada, vai reagir de outra forma, independentemente do numero de ignições. Além disso, outro dos lados da prevenção passa por diminuir o número de ignições e fazer com que aquelas que aconteçam sejam as indispensáveis para a gestão do uso da terra. 
Mas também são muitos os casos de fogo posto.
Fala-se em mãos criminosas e até em redes terroristas. Falar em crime é manobra de diversão para distrair do que correu mal no combate.
Mas podem apontar-se culpados?
O trabalho não pode ser apenas da responsabilidade da administração central. Há também o poder autárquico, que teria a função de fiscalizar aquilo que é posto em prática. Por exemplo, não se fala das festas de verão com lançamento de foguetes ou dos piqueniques com churrascos. As pessoas estão desagradadas com o que aconteceu e querem encontrar culpados e a solução mais óbvia é encontrar criminosos. Isso só revela ignorância e acontece porque a opinião pública é maioritariamente urbana e não tem  noção das práticas rurais em que se usa o fogo de forma indevida.
O verão de 2016 teria sido igual, caso o plano tivesse entrado em prática há dez anos?
A resposta a essa pergunta está carregada de incertezas, mas posso garantir que o combate teria sido mais fácil e eficaz se medidas como as chamadas faixas secundárias de gestão de combustível, aquelas de menor largura mas que ficam na envolvente de zonas edificadas, tivessem sido postas em prática de forma contínua. Os bombeiros teriam o trabalho facilitado e as pessoas estariam em maior segurança. 
Ascenso Simões fala agora em «erro grave» quando optaram pela aposta no combate. Poderia ter feito mais na altura? 
Não vou fazer julgamentos de intenções. O ex-secretário de Estado reconhece que a aposta no combate não foi a melhor solução e, ao falar do plano, está a assumir que a reorganização que propúnhamos devia ter sido considerada com mais seriedade. Não é preciso ser muito bom entendedor para perceber que ele diz que os critérios de decisão foram políticos e passaram por cima da solidez técnica e científica do plano.
E António Costa tem razões para se mostrar «chocado» por esta reforma entretanto não ter sido feita?
Na altura, era ministro da Administração Interna e Ascenso Simões seu secretário de Estado. Por isso, parto do princípio que estivesse mais informado e atento do que parece decorrer das suas últimas afirmações. Não sei se são declarações genuínas ou uma racionalização a posteriori, mas dizer que investir no combate foi uma forma de ganhar tempo para a prevenção se instalar no terreno mostra uma falta de coordenação interministerial para perceber se essa seria a estratégia mais coerente. Não ficou muito bem nessa fotografia.
O facto de os resultados da prevenção serem a longo prazo condiciona as decisões políticas?
Com certeza. Entre escolher algo que dê resultados dentro do ciclo eleitoral e escolher o que dá resultado diferidos, a tentação é óbvia. Imagina algum telejornal a abrir com meia dúzia de pessoas a roçar mato no meio de um pinhal? Isso não é sexy do ponto de vista mediático. Mediático é um grande avião a lançar calda cor de laranja para cima das chamas.
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