sexta-feira, 12 de agosto de 2016

É mesmo mau…

Graça Franco | RR 12 ago, 2016
A economia está claramente em estagnação. E a retoma perde força há pelo menos seis trimestres consecutivos.
É mesmo mau. Os dados provisórios divulgados esta sexta-feira pelo INE, através da chamada estimativa rápida, mostram uma economia claramente em estagnação, tornando a meta de crescimento de 1,8% prevista para este ano cada vez mais perigosamente irrealista. A desilusão é tanto maior quanto muitos analistas esperavam no segundo trimestre uma variação face ao trimestre anterior de pelo menos 0,5%. O que é mais do dobro do verificado.
Torna-se claro, agora, que a retoma está a perder força há pelo menos seis trimestres consecutivos. O Ministério das Finanças prefere reconhecer eufemisticamente que está apenas a “levar mais tempo a acelerar o ritmo de crescimento”, mas não é verdade. A série das variações trimestrais em termos homólogos prova que não existe nenhuma tendência de retoma; pelo contrário, a tendência de abrandamento está cada vez mais consolidada.
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No início de 2015 o crescimento homólogo rondava 1,7%, mas desde aí os números apurados são, trimestre a trimestre, cada vez menores, rondando agora escassos 0,8%. Ou seja, a força do crescimento caiu para quase metade. Claro que os números provam também que a governação de Maria Luís Albuquerque, depois de um bom resultado no primeiro trimestre, já estava na mesma linha descendente.
As indicações das variações “em cadeia” – ou seja: o crescimento registado face ao trimestre anterior – não são melhores: depois de três trimestres de crescimento sempre a cair, tivemos ultimamente três outros de crescimento igual (0,2%), confirmando uma clara estagnação da economia em torno deste valor.
Em rigor, a economia está a crescer muito abaixo do que seria aconselhável para que se pudesse verificar uma redução substancial do desemprego (a taxa referida na teoria económica é 2%). O dinamismo dos serviços, com destaque para o turismo, tem, apesar disso, conseguido um quase milagre com o desemprego a descer bastante mais do que seria expectável. Mas não podemos iludir-nos com este efeito, até porque ele é muito susceptível à variação sazonal.
Deste ponto de vista, o comunicado das Finanças, ao argumentar que se espera para os próximos meses um crescimento “sustentado nos sinais de franca retoma do mercado de trabalho” e ao lembrar que “o desemprego nos 10,8% é o valor mais baixo desde 2010 e há menos 61 mil desempregados” supera o habitual optimismo de Costa. Mesmo sem mentir, acaba a faltar à verdade.
A taxa a que se refere o comunicado de Centeno é calculada pelos critérios da OIT e não é comparável à habitual taxa do Eurostat, que para Junho estava calculada em 11% e nos dois casos não se trata de taxas expurgadas da sazonalidade. Por outro lado, quem conhece as séries da população empregada sabe bem que os números do segundo trimestre são sempre incomparavelmente melhores do que os do resto do ano e que mesmo em anos de forte contracção do emprego, como 2011 e 2012, se registaram aumentos entre Abril e Junho.
Como se isto não bastasse para nos desmoralizar, os dados conhecidos esta sexta-feira para toda a Europa mostram até que ponto o abrandamento registado nos nossos parceiros não é de molde a esperar no futuro uma grande ajuda da chamada “procura externa”. Continuamos a afastar-nos da média da zona euro com um crescimento abaixo do registado nessa area.
Para cúmulo, surgimos a par da Itália como um dos países com pior desempenho, o que em matéria de dívida nos coloca na linha da frente para qualquer eventual “ataque”. Vale a pena lembrar que só um crescimento forte nos trará, a prazo, a capacidade de redução da dívida, para já não falar da garantia da sua sustentabilidade. Este é um factor essencial da análise das agências de rating e que pode ser determinante no veredicto da agência canadiana que hoje concentra em si o poder de nos garantir ou não a continuação do acesso ao financiamento externo, por ser a única que não classifica de “lixo” a nossa dívida pública.
Enquanto a Grécia surpreendeu tudo e todos porque se previa uma nova queda do seu produto e conseguiu crescer tanto como a média da zona euro (uns invejáveis 0,3%), Portugal não só registou um crescimento abaixo do conseguido por Atenas como cresceu apenas metade do registado na Alemanha (0,2 contra 0,4). Um país que também se encontra a braços com um claro abrandamento.
O INE explica que na base deste péssimo desempenho da economia nacional está um crescimento do consumo privado em desaceleração, acompanhado de uma “redução mais expressiva do investimento”. Eis um bom exemplo do efeito perverso das políticas de austeridade. Não só o investimento privado não encontra incentivos para crescer ao ritmo desejável, como a queda abrupta do investimento público muito abaixo do previsto no Orçamento para forçar uma execução orçamental exemplar contribui para travar a economia, em vez de a estimular como aconselhariam todos os manuais.
Resumindo: com menos crescimento (do consumo público e privado e do investimento) sobram as exportações; mas destas não é provável que venha grande ajuda. Os dados do comércio internacional há dias divulgados mostram que as exportações de bens, que até Maio estavam a cair em termos homólogos 1,1%, caíram em Junho quase o dobro (2%). E, embora a variação em cadeia (registada face ao mês anterior) não seja ainda negativa, já praticamente atingiu a estagnação.
Faltam os números das exportações de serviços (onde se contabiliza o turismo), que se espera que tenham sido bem melhores, mas a tendência da balança comercial é para já também muito negativa. O défice comercial começa já consistentemente a agravar-se.
Sem se conseguir o crescimento da economia previsto, a receita fiscal também não crescerá como o esperado e as dificuldades de atingir as metas para o défice – com sanções ou sem elas – também se tornam cada vez mais difíceis. Até porque com um PIB mais baixo do que o previsto, a percentagem de 3% deste como limite para o défice orçamental é mais complicada de alcançar.
Com este quadro, convenhamos que também não é fácil injectar confiança na economia, até porque o bom funcionamento da chamada “geringonça” está muito apoiado na expectativa de aumentar políticas redistributivas, que sem crescimento se tornam cada vez menos possíveis. As estatísticas de Verão tornam a elaboração do próximo Orçamento um exercício cada vez mais difícil.
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