Hipona que resiste

Gonçalo Cadilhe | Visão | 06.08.2016

A cidade onde Santo Agostinho viveu durante 34 anos mudou de nome. Por falar nele, foi ele que disse: “O mundo é um livro e quem não viajou não saiu da primeira página”

Nunca ouvi falar de Annaba mas descubro que existe. E que fica na Argélia. E que é grande e importante e bem classificada na lista das cidades mais importantes do país: 4º lugar. Descubro que existe Annaba quando tento saber o que é feito de Hipona. Annaba é a antiga Hipona.
A minha atenção recai sobre a antiga Hipona por causa de Santo Agostinho, que ali viveu durante 34 anos. É um naco de tempo irrisório na vida desta cidade, que foi várias vezes destruída e renomeada. Mas a reputação das cidades também se faz através das pessoas que as habitam. Tendo vivido e escrito as suas obras fundamentais, as Confissões e A Cidade de Deus, em Hipona, Santo Agostinho tornou a cidade argelina uma referência incontornável na História da Igreja e da Filosofia. Tendo falecido lá, Santo Agostinho tornou Hipona uma meta de peregrinação para os cristãos da época.
Venho a Hipona mas não em peregrinação, os restos mortais de santo Agostinho já não se encontram lá, seriam depois trasladados para Pavia, em Itália. E de qualquer das formas o meu motivo não é turismo religioso mas sim curiosidade intelectual. Porquê Hipona? Santo Agostinho nasceu em Tagaste, perto da fronteira entre a Argélia e a Tunísia, uma região que os romanos chamavam de Numídia e que era o celeiro do império. Depois, viveu em Cartago, na altura uma das maiores cidades do mundo, numa vida de borga e amoralidade; mudou-se para Roma, onde se divertiu à grande como impagável pagão que era; e chegou por motivos profissionais a Milão, onde conhece Santo Ambrósio. Aí, Agostinho converte-se à nova religião. Estamos em 387.
Transfere-se de novo para a Numídia, fixa-se em Hipona e aqui será bispo durante 34 anos. Na altura Hipona tinha uma florescente comunidade cristã. Hoje, diz-me o padre Dominic na moderna basílica de Santo Agostinho, Annaba tem sete cristãos. E um turista: eu. Visito as ruínas romanas de Hipona, extraordinário lugar de evocação e abandono. “À noite, os delinquentes reúnem-se aqui para beber álcool e fumar droga”, diz-me o guardião enquanto vai apanhando latas vazias de cerveja espalhadas pelo fórum e pelo decumano da urbe romana. Somos os únicos homens hoje, eu e ele. Os delinquentes não precisam de esperar a noite, podem vir de dia que estão tranquilamente sozinhos na mesma.
Hipona resistiu mais de um ano ao cerco de Genserico, depois capitulou. Os vândalos arrasaram a cidade, depois reconstruíram-na e fizeram dela a sua capital. Os bizantinos chegaram um século depois e expulsaram os vândalos. Os árabes seguiram-se aos bizantinos, pela lei das armas. Os espanhóis de Carlos V conquistaram a cidade aos árabes. Os turcos otomanos expulsaram os espanhóis. Os franceses expulsaram os turcos. Hipona foi renascendo das cinzas de cada vaga de destruição: Hippo Regius, Hipona, Bouna, Bone Annaba. Os séculos passaram, os nomes mudaram, a cidade resistiu.
Visito Annaba e percebo como a Geografia foi condescendente para com a cidade, que é o tubo de um dos funis por onde se escoam as riquezas do norte de África para o Mediterrâneo. A religião também foi condescendente, ao colocar aqui o homem que sistematizou o pensamento do Cristianismo durante um milénio. E por falar em Santo Agostinho, foi ele que disse: “O mundo é um livro e quem não viajou não saiu da primeira página”. Deixo Annaba, viro mais uma página, continuo viagem pelos próximos capítulos.
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