sábado, 27 de agosto de 2016

Um filho

Inês Teotónio Pereira
DN20160827
É um clássico: uma pessoa sai à rua com seis crianças e tem a sensação de que está a desfilar num cortejo do circo. Uma família com seis filhos e um elefante com duas trombas despertam as mesmas emoções de espanto e até admiração. Pois, tenho a dizer que depois de passar uma semana com apenas um filho enquanto os outros estão distribuídos pelo país, acho esta admiração por famílias numerosas descabida. O que custa é aturar um filho, e não seis. Com seis filhos somos uma espécie de comandante de um batalhão: dá-se ordens e depois podemos ir ler um livro. A máquina funciona sozinha, eles brincam uns com os outros, ajudam-se uns aos outros e chateiam-se uns aos outros. Com um, temos de ser nós a brincar, a ajudar e, como não há mais ninguém, é a nós que a criança chateia. Ao fim de uma semana a criança está farta de me aturar e eu farta de andar de gatas, de fazer castelos na areia, mudar fraldas e já sonho com o Bombeiro Sam e a Patrulha Pata. Tenho o frigorífico cheio de legumes a apodrecer porque não sei comprar a quantidade certa para uma sopa. E estou arrasada. Ele, por outro lado, está entediado. Já fala sozinho e todas as manhãs chama pelos irmãos. Sofremos. Quando estamos todos, a criança passa quase despercebida. Há sempre um a jeito para brincar ou para lhe dar a mão quando ele tem medo do escuro. Na praia raramente me levanto da toalha. Agora, bom, agora compro-lhe gelados para poder estar cinco minutos sentada. O meu filho está obviamente mimado. E de diarreia, claro. Também não me larga as pernas, literalmente, e sabe que em 12 horas a full time com os pais são sempre eles que acabam por ceder. Mas hoje é o dia da libertação. Hoje tenho de novo seis filhos em casa e poderei descansar. E o meu filho poderá finalmente brincar com quem sabe. Trabalho? Com um filho trabalha-se a sério; com seis somos uma espécie de administrador da CGD: é só fama.
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