sábado, 20 de agosto de 2016

Ser cristão não serve para nada?

JOÃO MIGUEL TAVARES Público 20/08/2016

Ser cristão não serve para nada?

Há uma semana escrevi um texto sobre a ida de Marcelo Rebelo de Sousa à Madeira onde escrevi duas coisas que irritaram uma impressionante quantidade de leitores e de amigos. A primeira coisa foi ter elogiado o comportamento do presidente da República relacionando-o com o facto de ele ser cristão. Ou seja, atrevi-me a considerar que Marcelo demonstrara no Funchal uma capacidade e um talento para consolar quem sofria que tinha uma ligação com a fé que professava. A segunda coisa foi ter dito que a empatia se encontrava retratada nos Evangelhos como em mais lado nenhum.
Inúmeros leitores agnósticos e ateus ficaram ofendidos com as minhas palavras. Essa ofensa tem um duplo efeito sobre mim: chateia-me e entristece-me, porque me parece pura e simplesmente absurda. Vamos por partes. Em primeiro lugar, a questão dos Evangelhos. Eu não conheço todos os livros sapienciais do planeta, mas dentro daquilo que é a literatura ocidental ou a tradição dos monoteísmos não estou a ver que outro livro trate o amor ao próximo e a empatia de forma mais radical do que os Evangelhos. Isto só é uma opinião original para quem nunca leu a Bíblia. Não percebo porque é que um ateu não pode ler os Evangelhos com a mesma abertura intelectual com que lê Hamlet. Eu preciso de provar a existência do crânio de Yorick para apreciar as palavras de Shakespeare? Então para quê viver obcecado com a adesão à realidade dos conteúdos da Bíblia? Esqueça-se a existência de Deus e aprecie-se a literatura. Não é preciso acreditar na ressurreição para admitir que a empatia se encontra retratada nos Evangelhos como em nenhum outro lugar.
O segundo ponto, relacionado com a ligação que estabeleci entre o talento para consolar os que sofrem e a adesão ao cristianismo pode ser menos intuitiva, mas é fácil de compreender. Mais uma vez, não é necessário ter fé – basta achar que a fé serve para alguma coisa. Infelizmente, existe uma costela jacobina muito desenvolvida que não só recusa a fé, como recusa que ela possa ter qualquer efeito sobre os seus crentes. Enfim: nem sempre. Peguemos no fundamentalismo islâmico. Qualquer pessoa, crente ou ateia, está disposta a admitir que jovens muçulmanos são radicalizados pela acção de imãs extremistas, contra os quais há leis de expulsão. Nesse caso, admite-se que a religião serve para criar radicais capazes de sacrificarem a vida para matar os outros. Aquilo que já não se admite é que a religião possa criar radicais capazes de sacrificarem a vida para salvar os outros.
Isto não significa que um cristão seja moralmente superior a um ateu, ou que tenha de ser melhor do que ele a acudir aos mais fracos. Significa apenas que quando um cristão tem a vocação e o empenho necessários, os Evangelhos são um excelente instrumento para treinar a nobre arte do consolo. Quando dei o exemplo de Marcelo, não disse que ele era melhor pessoa do que um ateu, até porque nesse mesmo texto o apelidei de imprudente, impulsivo e infantil. O que disse, e mantenho, é que o talento natural de Marcelo no contacto com os outros, em conjunto com a sua formação cristã, o torna muito bom a consolar os que sofrem. Não é possível passarmos milhares e milhares de horas da nossa vida a estudar um assunto e isso não ter qualquer efeito em nós. Não me parece que se trate de uma questão de fé, mas de lógica – até porque tanto pode dar para o bem, como para o mal. Mas se nós aceitamos o fanático, por que não podemos aceitar o santo?
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