Renato no lugar de Costa

Inês Teotónio Pereira
DN20160702
Os meus filhos sabem tudo sobre todos os jogadores de todas as seleções. Soubessem tanto de Matemática e estaríamos perante meia dúzia de futuros Prémios Nobel. Eles sabem de estatística, falam em potencial e discutem estratégia. Conhecem os nomes das cidades depois de saberem os nomes das equipas de futebol. Munique, Mónaco, Manchester, Dortmund, Zagreb, Leicester, Lyon, são clubes que emprestaram o nome às cidades e não o contrário. Cidade sem clube não existe. Também não interessa a nacionalidade dos jogadores. O mundo é global e mais global ainda é o mundo do futebol. Aqui não há fronteiras, há símbolos; também não há nações, há seleções. Os homens são médios de cobertura ou de construção (não imagino o que seja isto), centrais ou extremos. Cá em casa fala-se dos milhões que cada um vale, pois a língua que falam não se ouve. Se o jogador é bom vale dinheiro, e é isso que interessa: o talento mede-se pelo valor e o mercado funciona ao estilo de Adam Smith, não tem espinhas nem osso.
Até que chega o Europeu. E no Euro eles choram. O Euro é a União Europeia sem Comissão, sem Parlamento, sem burocratas. O Euro não tem nada de moeda, é só bola. "Mãe, se a Inglaterra sair da União Europeia também sai do Euro?" Mas a Inglaterra não aderiu ao euro, digo eu. Eles ficaram a olhar para mim como se fosse parva. E sou, sou ignorante. O Euro deles escreve-se com letra grande, é o campeonato, o outro euro é uma reles moeda e escreve-se, obviamente, em caixa baixa. Explico-lhes que Juncker não toca na bola e que UE e Euro são dois universos distantes. Já não ouvem. Interessa-lhes saber que o brexit não influencia o Euro deles. Do Euro a Inglaterra saiu porque perdeu; da União Europeia o Reino Unido saiu porque escolheu. Parvos. Por isso é que no futebol não há referendos, há penáltis. O patriotismo dos meus filhos orbita à volta de bolas de futebol e exprime-se através de caras pintadas com as cores da bandeira. Estou com eles: se fosse eu a escolher tirava o Costa e punha o Renato. A central de cobertura.
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