domingo, 4 de setembro de 2016

Todos os anos, pelo Outono...

António Barreto
DN 20160904
Os primeiros dias de Setembro recordam rotinas e despertam saudades... Há melancolia no ar, mas também energia renovada. Os corpos ainda trazem sinais do mar ou da montanha. As olheiras do cansaço desapareceram por um tempo. O urbano retoma o seu império. Aliviados durante umas semanas, os acessos às cidades ficam congestionados e recomeçam as filas de carros e as horas perdidas. Nas ruas das cidades, fazem-se as obras mais vistosas, pois o ano que aí vem é de eleições. Os filhos vão para as escolas. Recomeçou a cena dos manuais a preços incompreensíveis. Veremos se, neste ano, volta a haver o drama da colocação de professores, mas tudo leva a crer que não: os sindicatos querem poupar o governo. Nas universidades, acolhem-se mais umas dezenas de milhares de novos alunos. Uma grande parte dos mais velhos entrega-se ao prazer sádico anual, a praxe, que convive com o alcoolismo, a pornografia e a violência. E a impunidade.
A Justiça inicia o seu ciclo. Ou antes, recomeça o ano judicial, não necessariamente a Justiça. Aproximamo-nos do fim de prazos agora famosos. Os grandes processos, "les causes célebres", continuam a sua penosa caminhada sem que se adivinhe o fim. Talvez nunca! Os banqueiros, bancários, gestores, empresários, governantes, deputados, autarcas e altos funcionários indiciados, arguidos, julgados, condenados ou em recurso esperam. Os cidadãos também.
Pelo país fora, no mundo mais sensível à natureza, é tempo de mudança. E de continuidade. Por matas e florestas, entre os queimados, fazem-se balanços, à espera de indemnizações e ajudas que só tarde chegam. Os últimos cereais foram guardados. Acaba a fruta de Verão. Ainda se corta a cortiça. Em breve se começará a preparar a terra para o ano seguinte. Mas o tempo é de vinho: em grande parte do país, fazem-se vindimas. Cheira a mosto nos campos, nas aldeias e nas vilas.
Na Assembleia da República, limpa-se o pó das bancadas e das poltronas. Prepara-se a liturgia do Orçamento. Serão longas semanas de trabalho, debate e berraria. A despesa e a receita de 2017 estão em discussão. Governo e oposição vão defrontar-se com rara aspereza. A novidade é que os apoiantes do governo, mas que dele não fazem parte, querem pretextos para apoiar, sem perderem a face nem os eleitores! As fricções, dentro do bloco do governo, serão tão ríspidas como as que se verificarão entre governo e oposição. Só que mais discretas.
É tempo dos balanços a que o Orçamento obriga. Confirma-se que o produto cresce pouco ou nada. Que o consumo interno não cresce. Que a poupança está no mais baixo de sempre. Que o investimento continua a diminuir. Pior: vamos verificar, com factos e números, que o produto nacional e por habitante não aumenta desde o princípio do século! Há quinze anos que o crescimento é zero! De 2000 a 2015, a preços constantes, com pequenos altos e baixos, estamos agora ao nível de então. A média anual do período é praticamente zero! É o mais longo período de estagnação económica da história moderna!
Após estes quinze miseráveis anos, era necessário estudar e rever. Era necessário verificar o que bateu certo e o que correu mal. Globalização? Euro? Crise financeira? União Europeia? Troika? Demagogia política? Corrupção? Falta de reformas? Falta de investimento? Estado a mais? Investimento público a menos? Um bom debate, no Parlamento e na sociedade, nas televisões e nos jornais, talvez ajudasse a rectificar. Ou, pelo menos, a esclarecer com mais inteligência e menos algazarra. Mas não. Vamos assistir ao habitual passa-culpas. O que corre mal deve-se ao governo anterior. Sempre. Ou antes desse. Ou ao actual. Os maus resultados deste ano são já visíveis. Neles, o PSD e o CDS procuram o seu contentamento. Deles, o PS acusa o governo anterior. Por causa deles, o Bloco atira sobre a União Europeia. E o PCP faz pontaria ao capitalismo.
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