segunda-feira, 26 de setembro de 2016

Ficar em casa

João Taborda da Gama
DN 20160925

Os horários da escola, cada vez mais amplos para acudirem às necessidades profissionais sufocantes dos pais, deixam pouco tempo para coisas que não são menos importantes do que a aula de Educação Física. Almoçar e passar uma tarde com os avós, ir ao Pingo Doce, andar de bicicleta. Que sentido faz isto?

Neste regresso à escola, a L. não regressou à escola. Vai fazer a quarta classe em casa, a casa como escola, a mãe como professora, a mesa da cozinha como carteira, a rua como recreio. Mas isso pode-se? é legal?, é a primeira pergunta que nos fazem. Sim, a lei prevê que os pais possam educar os seus filhos em casa, e o Estado controla a coisa verificando quem é o encarregado de educação, o plano de estudos seguido e sujeitando a criança a exames. As regras estão espalhadas em vários sítios, mas são relativamente simples.
Mas no fundo, no fundo quando as pessoas perguntam "isso pode-se", não querem saber se isso se pode ou não, porque presumem que se possa, que os pais, que até são ambos juristas, tenham visto bem isso e não queiram que a Segurança Social lhes retire a filha. No fundo, esta pergunta é mais para ganhar balanço para a que vem normalmente logo a seguir, o porquê? A L. estava na escola, mas a verdade é que não adorava. Gostava muito dos colegas, mas não de todos. Gostava da professora, das auxiliares, sem dúvida. Mas, sem ingratidão, gosta mais da mãe do que das professoras, de ler Um Atalho no Tempo quando lhe apetece, do que apenas no fim do dia cheia de sono, depois da escola, da guerra civil do deitar, do arrumar a mochila; gosta mais de cozinhar o almoço do que comer do refeitório. E ter tempo para aprender outras coisas, ao seu ritmo, trabalhar mais o que tem mais falta e o que mais gosta.
O Ministério da Educação explica: "As modalidades de ensino doméstico e a distância revestem-se de carácter excecional e visam responder a solicitações de famílias que, por razões de mobilidade profissional e outras de natureza estritamente pessoal, pretendem escolher os métodos de ensino mais apropriados para os seus educandos." É uma solicitação, e são razões de natureza estritamente pessoal - quem diz é o ministério. E são. Pessoalmente achamos que a ideia de escola é muito bonita, sem ironia, que sem escolas nada havia, e que é por isso que é bom pagar impostos, e por isso os nossos outros filhos continuam na (mesma) escola. Mas também achamos que momentos, circunstâncias e crianças diferentes recomendam caminhos diferentes.
O sistema educativo é mais do que uma escola-parede e professor - é também este sistema que permite espaços de maior liberdade em relação ao próprio Estado, em que o Estado recua ao essencial, se remete à verificação da capacidade dos pais para educar segundo um programa. Um Estado que deixa que os pais sejam plenamente o que naturalmente são, educadores, com as suas virtudes, os seus defeitos. Um Estado que deixa os filhos estarem mais tempo com os pais, mais tempo em casa. Os horários da escola, cada vez mais amplos para acudirem às necessidades profissionais sufocantes dos pais, deixam pouco tempo para coisas que não são menos importantes do que a aula de Educação Física. Almoçar e passar uma tarde com os avós, ir ao Pingo Doce, andar de bicicleta - três coisas que uma criança na quarta classe tem hoje dificuldade em fazer sem estar a faltar a qualquer coisa. Que sentido faz isto?
Há sempre o fantasma da socialização, se ela não vai sentir falta dos amigos. Temos começado por esclarecer que não a vamos fechar numa cave como o Sr. Fritzl, nem vamos viver para o Parque Natural de Montesinho, que a L. vai continuar a viver numa casa com cinco irmãos, numa rua com pessoas, que vai continuar a fazer muitas horas de desporto por semana e outras atividades. E que as amigas da escola vão continuar a falar com ela e a poderem ir lá a casa, mesmo depois dos pais lhes dizerem, quando elas lhes pediram para também ficarem em casa como a L, que a L. e os pais da L. não são bons da cabeça.
E tudo é reversível, se a coisa não correr bem, se deixarmos de achar que é o melhor, se ela deixar de querer está lá sempre a escola, o Estado, o colégio, tudo como rede, e os amigos, a família, a darem imenso apoio, com "told you" escrito na testa.
Claro que para fazer isto é preciso poder, poder ter um dos pais em casa, e que esse pai queira ensinar, e que a criança queira ficar em casa. Mas querendo e podendo, só há uma razão para não fazer, o medo do que os outros possam pensar, o desconforto, o ter de explicar, o receio de ser diferente, ou, pior ainda, de assumir e viver essa diferença. E só por isso, por essa libertação, que também queremos que seja parte da lição da L., já valeu a pena.
E, sim, vamos continuar a vacinar os miúdos.
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