sexta-feira, 9 de setembro de 2016

40º aniversário da morte de Mao-Tsé-Tung


Mao Tse-tung
26-12-1873 
9-9-1976
Hugo Dantas
20160909 Facebook
Quarenta anos atrás, morria este portento. Após uma longa luta com os exércitos nacionalistas de Chiang Kai-shek, desgastados e diminuídos pelo confronto com o invasor japonês, Mao alçou-se ao poder em 1949 com a proclamação da República Popular da China. Foi junto de Estaline que Mao procurou recolher a experiência histórica soviética, angariar auxílio técnico e económico e encontrar abrigo contra o arsenal atómico americano. O regime comunista chinês, que se fizera discípulo do estalinismo, não podia, pois, contemporizar com a denúncia de Estaline por Kruschev depois de 1956. Seguiram-se as acusações de revisionismo ao novo homem forte soviético, a excomunhão mútua, a cisão no bloco socialista, acelerada também pela relutância russa em auxiliar o programa nuclear chinês. Os soviéticos farão regressar os seus técnicos e o crescendo de tensão redundará em escaramuças entre as forças armadas dos dois países nas margens do rio Ussuri em 1969. A China disputará com a União Soviética a liderança do movimento socialista internacional e procurará no antigo inimigo a protecção contra o antigo aliado. A aproximação política aos Estados Unidos da América, consumada com a visita de Nixon à China e a admissão da China continental na Organização das Nações Unidas, com a consequente expulsão da Formosa, ilustram bem a complexidade da teia das relações internacionais do tempo.
Depois da ruptura com o aliado soviético, Mao tentará franquear uma via chinesa para o socialismo, o que significaria uma crescente radicalização do seu pensamento e acção política. O momento de abertura das Cem Flores, que permitiu por um breve instante a crítica aberta ao regime e ao pensamento socialista, terminou em repressão. A aventura do Grande Salto em Frente saldou-se num grandíssimo desastre, originando uma crise alimentar cujas vítimas se contam em milhões. A iniciativa de Mao de segurar mais firmemente o poder nas suas mãos, extirpando dirigentes adversos de lugares de destaque e eliminando os últimos vestígios da antiga cultura do confucionismo e do budismo na China tomou corpo na Revolução Cultural, um período de tremenda agitação revolucionária protagonizada pelos guardas vermelhos e pela juventude maoísta, explicitamente incitada a lutar contra os reaccionários pelo uso desmedido da violência. Seria Mao que, alertado pelo crescente furor revolucionário das massas, decidiria por fim ao processo e conter os ímpetos das alas mais radicais do movimentos.
A morte de Mao em 1976 originaria uma fase de disputa interna pelo poder que culminaria no julgamento do Bando dos Quatro, cabecilhas do espírito mais atroz que presidiu à Revolução Cultural, e na vitória do antes renegado Deng Xiaoping. A economia chinesa, ainda apegada ao modelo soviético da indústria pesada, começará a transição para a produção intensiva e predominante de bens de consumo. O experimentalismo revolucionário das décadas maoístas será abandonado e abrir-se-á um campo onde medrará uma espécie muito particular de economia de mercado chinesa, em que a acumulação de capital de grandes financeiros e homens de negócios conviverá com um regime político dominado pelo Partido Comunista, que detém ainda a última palavra em tudo o que concerne aos destinos do país em matéria política e económica. Tiananmen foi um abalo e um símbolo da ânsia de renovação social de um conjunto citadino mais esclarecido, mas que seria prontamente esmagado pelas lagartas dos blindados que avançaram sobre a praça em 1989. A China continua a crescer, é a segunda economia do mundo, o seu Estado mais populoso e mantém, por enquanto, o aparente paradoxo da existência uma prosperidade económica construída sobre uma estrutura politicamente rígida e fechada.
Se a experiência económica e política de Mao foi abandonada, nunca foi explicitamente abjurada. O seu retrato ainda hoje lá está, em Pequim, a sua iconografia permanece um pouco por toda a China, e o seu mausoléu ergue-se intacto. A sua memória é ainda fundamento de legitimidade do regime. Obcecado pelo poder, homem de acção brutal, de espírito torcionário, foi, no entanto, esse homem, saído da China rural e atrasada, que a ferros, e no meio das maiores dores, arrancou dela a China moderna. Se o maoísmo morreu, provavelmente Mao ainda viverá, não pela sua doutrina ou pecados, mas como um ícone da independência e reabilitação da China, mesmo quando o actual regime viver a sua perestroika e porventura venha a ser substituído por outro, em hora ainda a definir.
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