quinta-feira, 15 de setembro de 2016

O EXEMPLO DE VIDA E DE AMOR DE FRANÇOIS-XAVIER VAN THUÂN

Paulo Aido, Voz da Verdade, 11.09.2016

O segredo do Cardeal
O regime comunista do Vietname tentou silenciá-lo. Foram 13 anos de cadeia, de privação da liberdade com largos períodos de isolamento total, confinado a uma cela minúscula. Nada, porém, demoveu este homem de aspecto frágil e sorriso bondoso. A sua história, de resistência e amor, é inspiradora. Van Thuân faleceu a 16 de Setembro, há precisamente 14 anos.
A guerra do Vietname estava a chegar ao fim. Logo após a conquista da capital pelos guerrilheiros do norte, depressa se percebeu que muita coisa ia mudar em Saigão, a começar pelo seu próprio nome da cidade. As novas autoridade de Ho Chi-Minh convocaram o então jovem bispo Van Thuân para uma reunião no Palácio Presidencial. Foi um pretexto, apenas, para o prenderem. Mal entrou no edifício, foi encaminhado para um automóvel e, já sob prisão, seguiu, deportado, para a aldeia de Cay Vông. Sem suspeitar de nada, Van Thuân estava a iniciar um longo período de prisão, de medo e violência. Era o início, apenas, do seu purgatório pessoal. Não sabia que ia ser preso. Não levou nada consigo. Com excepção do terço. No entanto, apesar do seu aspecto frágil, apesar de estar só, apesar da violência da prisão, Van Thuân nunca se rendeu, nunca foi vencido.
Missa clandestina
O isolamento a que foi votado na cadeia era uma forma de tortura terrível. Encarcerado numa cela minúscula, haveria de recordar esses anos de isolamento total como “uma tortura mental no limite da loucura”. Porém, ele fintava todos os dias a vigilância apertada dos guardas que olhavam para ele e só conseguiam ver o homem, nunca descobrindo o bispo, o cristão, o guardião da fé. Ao longo dos anos de prisão, Van Thuân fez da oração diária, persistente, a força que lhe permitia suportar tudo. Aos poucos foi conseguindo pequenas vitórias. Deixam-no escrever uma carta aos amigos. Pede-lhes um pouco de “xarope como remédio” para curar as dores de estômago. Os guardas nunca perceberam do que se tratava. Assim, usando umas gotas de vinho – o tal xarope para o estômago – conseguiu celebrar a missa todos os dias. “Nunca conseguirei exprimir a minha grande alegria” por isso, escreveria mais tarde, sobre as “mais belas missas” da sua vida: “Todos os dias, com três gotas de vinho e uma de água na palma da mão, celebrei a Missa. Era este o meu altar e era esta a minha catedral!”
A Bíblia pessoal
Ao longo dos 13 anos de calvário, Van Thuân haveria de conhecer diversas prisões, cada uma delas mais sinistra do que as anteriores. Uma das celas onde esteve confinado em total isolamento estava carregada de humidade, sem janelas, numa escuridão total, com apenas 2 metros quadrados. Durante meses não pôde abandonar a cela, nem sequer para ir à casa de banho. Ao contrário do que pretenderiam os responsáveis da cadeia, não enlouqueceu. Noutra ocasião, esteve acorrentado a um preso durante dias, mas não havia maneira de o vergar. Quando conseguia ter acesso a papel e a um lápis, escrevia. Foi assim que, de memória, redigiu a sua pequena Bíblia pessoal. “Não tinha nem papel nem caderno. Mas a polícia forneceu-me algumas folhas de papel que eu deveria usar para responder a todas as suas perguntas. Assim, pouco a pouco, comecei a reservar alguns pedaços de papel e consegui fazer um caderno bem pequeno. Dia após dia, consegui escrever em latim mais de 300 frases da Sagrada Escritura que conseguia puxar de memória. A Palavra de Deus assim reconstruída foi o meu porta-jóias a partir do qual tirei força e alimento.”
Perdoar sem limites
Não haveria outro preso como ele. Pequeno, simpático, sorridente, cativante, era perigoso por isso. As autoridades substituíam com frequência os guardas, na tentativa vã de não serem seduzidos por Van Thuân. Em vão. A sua vida, até nisso, foi exemplar. Ao mal, ao ódio, respondeu com o amor, com o bem. Que fazer com alguém assim? As autoridades comunistas acabaram por libertar Van Thuân ao fim de 13 longos anos de cativeiro. As portas da sua cela abriram-se no dia 21 de Novembro de 1988, dia em que a Igreja celebra a apresentação da Virgem no templo. Para François-Xavier Van Thuân, não havia dúvida alguma do que estava a acontecer: “Maria libertou-me!” Foram 13 anos de prisão sem julgamento e sem ter recebido qualquer condenação. Mas as autoridades comunistas não lhe permitem o exercício do cargo de Bispo e fica confinado à residência episcopal até que, em 1991, é obrigado a abandonar o Vietname. Decide viver o exílio em Roma. São João Paulo II nomeia-o para o Conselho Pontifício Justiça e Paz, primeiro como vice-presidente e depois como presidente. Em 2001, quando é nomeado Cardeal, já está bastante doente. Vítima de cancro, que o impedia praticamente de comer e dormir, morre a 16 de Setembro de 2002. João Paulo II evocaria Van Thuân como um “arauto heróico do Evangelho”. Todos os que o conheceram falam de alguém muito especial, que amava realmente os outros, mesmo os algozes, mesmo os que o mantinham na prisão, e que foi um exemplo vivo do que é o perdão sem condições. Esse amor incondicional foi o grande segredo do Cardeal.

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