quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Cinco anos de mandato

Pe. João Seabra
DN 20160914

Por variadas razões, acompanhei sempre, embora relativamente longe, a actividade da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, sobretudo nos períodos em que esteve a cargo de Maria José Nogueira Pinto. Desde que, há alguns anos, aceitei o convite para ser membro do Conselho Institucional que se tornou minha obrigação manter-me informado e formar um juízo sobre as orientações e realizações dessa grande Instituição de Solidariedade Social de Lisboa.
Por ser membro do referido Conselho Institucional, e também por ser Pároco da Santa Casa, porque tanto a Sede da Misericórdia de Lisboa, como a Igreja de São Roque estão situadas na Paróquia da Encarnação, que me está confiada, tive oportunidade, em Março passado, de assistir a um evento raro nos anais da democracia portuguesa. Assisti à tomada de posse do Provedor da SCML conferida pela Primeiro-Ministro: dois adversários políticos de longa data, membros destacados de partidos em grande divergência política. O cargo, como se sabe, é de nomeação do primeiro-ministro, que conferiu a posse. O acontecimento, na sua raridade e, porque não dizê-lo, espectacularidade, tem, decerto, muitas razões políticas que escapam à minha ignorância de homem de rua. Mas tem uma razão que para mim é evidente: nos anos que antecederam, Pedro Santana Lopes foi um excelente provedor da SCML.
A Misericórdia é uma Casa, Santa embora, pesada e cheia de tradições e hábitos, muitos aliás notáveis. Uma gestão responsável não pode delapidar o património de experiência, de inserção capilar no tecido social da cidade, de conhecimento de centenas e milhares de casos concretos de necessidade e aflição que torna os serviços da SCML tão próximos das gentes de Lisboa. Mas não pode também deixar de se preocupar com a modernização administrativa, com a inovação tecnológica e científica e com a identificação atempada das novas questões sociais. Sob a provedoria de Santana Lopes, identifica-se essa difícil mas conseguida articulação entre tradição e inovação, que não é apenas um lema mas um método e uma realidade operativa. Na preservação da tradição da SCML tem uma importância decisiva, digamos mesmo identitária, a origem e a natureza histórica da Misericórdia, como uma manifestação organizada do espírito cristão. A história política e social dos séculos XIX e XX transformou de algum modo a SCML num instituto público, constitucionalmente submetido aos princípios da separação do Estado e das Igrejas e de uma sã laicidade.
Penso que Pedro Santana Lopes tem tido a sabedoria de, no estrito respeito pelos princípios da liberdade religiosa que governa a sociedade portuguesa, encontrar na matriz histórica da SCML as inspirações e agendas para uma intervenção social mais humana e mais próxima dos que mais precisam. O seu acolhimento teórico e prático ao desafio do Jubileu da Misericórdia lançado pelo Papa Francisco à Igreja e ao Mundo é disso manifestação eminente.
Do fundo do coração, invoco a protecção e a bênção de Nossa Senhora da Misericórdia para estes próximos anos de actuação da Santa Casa.
Cónego da Sé Patriarcal.
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