quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Medina sonhava ser Napoleão

Sofia Vala Rocha
SOL 13 de setembro 2016

A Segunda Circular pode ter sido o ‘general inverno’ de Fernando Medina
A segunda Circular só foi uma surpresa para quem não conhece Fernando Medina. Foi apresentada como a ‘obra do regime’. Seria uma avenida de tipo francês, a imitar os Campos Elísios. Monumental, cheia de árvores. Teria um custo de 10 milhões de euros e iria revolucionar a grande área metropolitana de Lisboa. Intervenientes públicos qualificados mostraram dúvidas e reservas, mas isso não demoveu o presidente da Câmara de Lisboa. Esta semana, Medina recuou com o argumento pobre de que a culpa era do júri. 
É a segunda vez que o executivo a que Fernando Medina preside – o PS coligado com o movimento político de Helena Roseta – tem uma derrota clamorosa. A primeira foram os terrenos da Feira Popular. Já os levaram à praça, em hasta pública, três vezes. Das três vezes, os responsáveis da CML fizeram declarações públicas a dizer que tinham muitos interessados. Ora os terrenos, pelos quais pedem 130 milhões de euros, continuam por vender.  
O caso da Feira Popular é fácil de explicar. Por causa da demagogia dos partidos de esquerda, o projeto foi sendo tão alterado que já não há nenhum construtor, promotor ou investidor que o queira. A CML tem agora duas hipóteses: ou muda o projeto, favorecendo o negócio imobiliário e enfrentando politicamente a ‘geringonça’, ou põe os terrenos em saldo, prejudicando as finanças públicas. Neste momento, creio, já nem terão coragem de os tentar vender com receio de passar uma vergonha.
Erradicar as barracas do Casal Ventoso, fazer a Expo, a Frente Ribeirinha ou o Túnel do Marquês foram grandes e estruturais mudanças na cidade de Lisboa. A Segunda Circular e a Feira Popular seriam o legado de Medina para apresentar à população. Prepararam tudo mal preparado – e são agora forçados a recuar, sem honra nem glória. 
O folhetim da Segunda Circular, só por si, já seria grave, mas a somar ao da Feira Popular mostra uma certa propensão para a megalomania que acaba mal. Manda a verdade dizer que nem sequer é novidade. Já António Costa se tinha candidatado a Lisboa em 2009 prometendo uma terceira travessia sobre o Tejo e um novo aeroporto.  
Entretanto, no dia-a-dia da cidade, o Intendente voltou a ser um mercado a céu aberto de droga (tráfico e consumo) e de prostituição, segundo as denúncias dos moradores. Bastou que António Costa de lá saísse e tudo voltou ao antigamente. 
O bairro do Alto do Parque continua a ser conhecido como o ‘carrossel’, por causa da prostituição. A rotunda do Areeiro continua um estaleiro. A Ribeira das Naus não teve solução.
Fernando Medina sonhou com os Campos Elísios, desfilando triunfal sob o colossal Arco do Triunfo. É bom ser sonhador e visionário, fazer obra. Embora convenha sempre lembrar como é que as obras são financiadas. Desde o início do mandato de 2013, a CML já vendeu 500 milhões de euros em património. 
O desastre da Segunda Circular é bem capaz de ter sido o ‘general inverno’ do presidente Medina.
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