terça-feira, 27 de setembro de 2016

"Dou-me por culpada"

Álvaro Balsas
JN 20160927
A senhora secretária de Estado Alexandra Leitão (AL), tenaz defensora de uma certa conceção de escola pública, tem promovido uma cruzada contra os "lobbies" dos contratos de associação, que vivem, segundo ela, às custas do Estado. Campanha essa que acabou por atirar recentemente para o desemprego, de uma só penada, uma grossa fila de professores e funcionários indefesos, gerando nefastos e irreparáveis danos nas respetivas famílias, que se viram súbita e brutalmente atingidas, sem que o Estado assuma as suas responsabilidades sociais.
AL veio agora, numa entrevista concedida ao DN, a 15 de setembro último, movida, de novo, por um ímpeto de "convicção firme", de que afirma estar possuída - qual heroína e missionária nacional -, declarar-se culpada face às acusações que lhe fazem de gastar dinheiro na escola pública. Afirma AL que esta escola é "o grande veículo de igualdade de oportunidades", já que "temos de ter todos as mesmas oportunidades à partida, independentemente... do contexto socioeconómico em que nascemos". Mais, afirma AL que "as nossas escolas são todas iguais e as crianças também". Não podemos estar mais de acordo. Ora bem, fazendo boa-fé na cândida bravura destas afirmações, podemos dizer que, em abstrato, qualquer cidadão minimamente preocupado com as desigualdades sociais dos alunos portugueses as subscreveria. Todavia, quando tais afirmações passam pelo crivo da prática concreta, verificamos de imediato a emergência das mais flagrantes contradições em que AL incorre. Como convive AL, intrépida defensora do princípio de igualdade dos alunos, defendido por todos nós, com o simples facto de ela, quando se trata do seu agregado familiar, abrir mão desse princípio para colocar os seus filhos na Escola Alemã? Ela explica: os seus filhos necessitam de uma educação com marcado currículo internacional, o que é, convenhamos, um critério sumamente louvável, para uma mãe que se preocupa verdadeiramente com o futuro da sua prole. Tal critério supõe, evidentemente, a existência de liberdade de opção, garantida pelas condições económicas do agregado familiar, como é o caso do de AL, ou pelo Estado, mas neste caso impedida pela ideologia dogmática de quem governa, que, simultaneamente, rouba às famílias sem posses a possibilidade de escolher o colégio onde quer os seus filhos. Dois pesos e duas medidas, portanto: os ricos escolhem e os pobres só podem "escolher" o que o Governo, movido pelo que a ideologia ilustrada marxista da atual geringonça lhes dita e deixa de sobra, isto é, a escola pública. Se esta é boa ou má, para AL não interessa, porque, segundo a sua crença ideológica, ela é boa por natureza, enquanto os colégios com contrato de associação são maus por definição, mesmo quando ministram uma formação de excelência a alunos pobres.
Vindo AL reclamar para si mesma no DN a condição de singular defensora da igualdade de oportunidades dos alunos, estranhamos que não tenha reclamado também a liberdade de escolha, tão cara aos verdadeiros regimes democráticos, mas desta vez astuciosamente olvidada pela ideologia da geringonça. AL declarou-se culpada, mas apenas das culpas que a tornam, aos seus próprios olhos, heroína e campeã da igualdade, mas esqueceu-se da liberdade e da fraternidade, ao lançar desastrosamente no desemprego e na indigência uma significativa quantidade de famílias, sem dar mostras de se comover com as mesmas. Que ela diga apenas que "com grande franqueza lamenta imenso qualquer despedimento", não vemos onde está a franqueza ou o lamento, pois, de contrário, teria acautelado essas situações antes de as ter deliberadamente originado, nomeadamente oferecendo, do orçamento do seu Ministério, meios financeiros para compensar as famílias que ela votou ao desemprego.
AL deveria declarar-se culpada, sim senhor, mas pelas razões que ela esqueceu na sua entrevista. A história do ensino em Portugal, quando ela for escrita isenta de ideologias e dogmatismos marxistas, declarará AL culpada de fazer regredir o ensino a patamares onde a liberdade se vê de novo espezinhada, a lembrar tempos bafientos. Talvez por isso, encontremos o dr. Mário Nogueira e seus correligionários tão satisfeitos e complacentes com a atuação do Ministério da Educação. Nós, cidadãos livres, não queremos ser objeto dos cuidados de um Estado totalitário que impede a liberdade de educação, como acontecia antes do 25 de Abril.
JESUÍTA E PROFESSOR DA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE BRAGA
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