quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Coração à esquerda, razão à direita

José António Saraiva
Sol, 20160913

Houve uma parte do PS que aderiu convictamente à sociedade de mercado, ao projeto europeu, à democracia representativa – e outra parte do PS que ficou agarrada ao passado, aos mitos da esquerda, à utopia, à desconfiança em relação à Europa e ao mercado

Na hora da morte de José Silva Lopes, que foi ministro das Finanças no pós-25 de Abril, tendo integrado um Governo de Mário Soares, um dos seus amigos revelou que ele dizia ter «o coração à esquerda e a razão à direita».
Não foi a primeira vez que ouvi esta frase.
Há uns 10 anos, Vasco Pulido Valente dizia isso numa entrevista.
E há muito tempo que eu sinto precisamente o mesmo.
Tenho o coração à esquerda mas a razão à direita.
Como quase todos os jovens da minha geração, nasci e cresci na esquerda.
O meu pai era militante do PCP (do qual saiu em meados dos anos 60), o meu irmão mais velho também, os meus amigos mais politizados eram todos esquerdistas, vivi a greve académica de 1969.
Saudei efusivamente o 25 de Abril, como a esmagadora maioria dos portugueses – e temi depois a tomada do poder pelos comunistas.
Assisti com ansiedade à luta de Mário Soares contra o PCP e a ala mais radical do MFA, e depositei esperanças na moderação do ‘Grupo dos Nove’, os militares que fizeram frente à hegemonia dos comunistas e da extrema-esquerda nos quartéis.
Até aqui, muita gente esteve de acordo.   O célebre comício de Soares na Fonte Luminosa, onde abriu um fosso entre os partidos democráticos – o PS, o PSD e o CDS – e os partidos antidemocráticos – o PCP e as forças à sua esquerda –, teve um apoio esmagador. 
Mas a partir daqui as águas no ‘campo democrático’ começaram a separar-se. 
Houve uma parte do PS que aderiu convictamente à sociedade de mercado, ao projeto europeu, à democracia representativa – e outra parte do PS que ficou agarrada ao passado, aos mitos da esquerda, à utopia, à desconfiança em relação à Europa e ao mercado. 
O PS ‘liberal’ contava com figuras de peso como o próprio Mário Soares, Almeida Santos, António Guterres ou Jaime Gama; o PS ‘esquerdista’ juntava pessoas como Jorge Sampaio, António Costa ou Ferro Rodrigues.
Quer isto dizer que a linha divisória entre esquerda e direita ficou a passar pelo interior do PS.
A metade ‘esquerdista’ adotou uma linguagem voluntarista, muitas vezes irrealista, pouco objetiva.
A metade ‘liberal’ do PS, pelo contrário, optou por um discurso concreto, pragmático, aderente à realidade.
Não dizia «isto devia ser assim», mas «isto é assim e é neste contexto que temos de atuar».
Com Soares, com Guterres, com Sócrates, o PS foi dominado pelos ´liberais’; hoje é dominado pelos ‘esquerdistas’.
E sendo todos socialistas, estão a léguas uns dos outros – porque têm raízes diferentes.
A diferença entre eles não é quantitativa, é qualitativa.
Os ‘liberais’ são herdeiros de um modelo que se foi construindo no Ocidente a partir da evolução orgânica da sociedade medieval.
O desenvolvimento das cidades levou ao aparecimento de uma nova classe chamada ‘burguesia’, que se impôs como motor da História e deu origem ao capitalismo como hoje o conhecemos. 
Ora, a esquerda socialista contesta o modelo ‘burguês’ de sociedade e vive mais das cartilhas dos teóricos. 
Sucede que, sempre que se aplicaram às sociedades modelos teóricos, deu asneira. 
Tal como um sapato que não se adapta ao pé, a aplicação desses modelos obrigou ao corte de dedos para salvar o sapato.
Enquanto o PS ‘liberal’ mergulha as suas raízes na sociedade que conhecemos, construída passo a passo, empiricamente, o PS ‘esquerdista’ acredita em teorias escritas à secretária (algumas das quais já deram terríveis provas e conduziram a catástrofes humanas). 
Enquanto o PS ‘liberal’ aceita a evolução que se deu no Ocidente e fala uma linguagem realista, moderada e europeia, o PS ‘esquerdista’ acredita em utopias e desconfia da Europa. 
Neste sentido, não tenho dúvidas de que a razão está à direita.
Mas, tal como Silva Lopes, tenho o coração à esquerda.
Emociono-me com a desgraça, sofro com os dramas alheios, faço o que posso a nível individual para respeitar e ajudar o próximo – mas percebi há muito que, a nível coletivo, as propostas políticas que a esquerda apresenta não só não resolvem os problemas como muitas vezes os agravam.
Como sucedeu na Grécia de Tsipras – e, por este caminho, acontecerá em Portugal. 
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