terça-feira, 13 de setembro de 2016

A “bullshit” de António Costa

Henrique Raposo
Expresso 13 de Setembro de 2016 

O filósofo moral Harry Frankfurt escreveu um livro que descreve bem o estado atual do PS ainda controlado pelo fanatismo socrático - “On Bullshit”. A “bullshit” ou conversa da treta não é apenas uma mentira, porque um “bullshiter” profissional como António Costa não é um simples mentiroso. Tal como o homem que diz a verdade, o mentiroso conhece os factos, conhece a verdade, sabe que está a mentir; uma boa mentira, como sabemos, necessita de uma dose de verdade, visto que é necessário esconder aquela falsidade específica no meio da verdade. O “bullshiter” é um animal diferente, já não tem qualquer adesão à realidade, a diferença entre verdade e mentira é aqui indiferente, porque ele não sabe se está a dizer a verdade ou a mentira, nem pretende esconder uma mentira específica no meio da verdade. O “bullshiter” deseja outra coisa: criar uma “narrativa” impermeável à realidade, uma “narrativa” que dependa apenas do seu capricho; esta conversa da treta permite-lhe sobreviver publicamente num mundo que não consegue perceber ou que não quer perceber. A sua “narrativa” é indiferente a factos empíricos demonstráveis, rebatíveis ou confirmáveis por toda a gente; ele vive numa bolha “narrativa” que partilha com a sua tribo. Esta privatização dos critérios da verdade e da realidade começou com Sócrates e permanece a marca de água de António Costa. 
As contas públicas estão controladas, diz Costa, mas todos os indicadores económicos verificáveis e públicos negam essa “narrativa”. O aumento do número de candidatos ao ensino superior, diz, é a derrota do modelo da direita. Para seu azar, o número de candidatos está a aumentar há vários anos, isto é, o aumento começou durante o governo Passos-Portas; o número de candidatos só baixou durante o choque inicial da troika entre Sócrates e Passos (2010-2011). Os números são claros. O problema é que a atmosfera atual do PS é impermeável à realidade empírica que devia funcionar como chão comum do debate. De resto, isto dura há anos e anos. O PS governou o país quase sem interrupção entre 1995 e 2011, é o grande responsável pelo caminho ruinoso que o país seguiu, mas nunca fez um exercício de mea culpa. Assim que saiu do poder, limpou as mãos e transferiu a culpa para a coligação Passos-Portas. Foi como ver um alcoólico a transferir a responsabilidade do seu estado clínico para o médico que o tenta ajudar. Mais tarde, António Costa perdeu as eleições porque fez uma campanha contra a realidade demonstrável: o desemprego estava a baixar, as exportações estavam a subir, os índices de confiança do consumidor estavam a subir, a realidade gerada pela PaF não era o apocalipse na “narrativa” do PS. Costa porém não mudou de agulhas, pintou em 2015 um retrato que só fazia sentido em 2011 e perdeu as eleições mais fáceis da história da democracia. São as exigências da “narrativa”. 
É claro que o debate público é feito por diferentes sensibilidades políticas que têm diferentes lentes sobre a realidade, mas existe uma diferença entre uma “lente parcial e subjetiva da realidade” e a “bullshit”; uma coisa é ter uma visão naturalmente subjetiva da realidade, outra coisa bem diferente é substituir a realidade por uma “narrativa” que funciona como realidade paralela onde tudo encaixa nos nossos preconceitos, anseios e ódios. Para compreendermos a diferença, podemos usar a dicotomia de Fernando Gil, crença vs. convicção. A crença é uma verdade emocional que sentimos antes de qualquer verificação empírica, racional e argumentativa; é uma verdade que sentimos na sinceridade, no coração, nos princípios. Problema? Essa crença pode não ter qualquer correspondência com a realidade ou pode ser indemonstrável. Por sua vez, a convicção é uma verdade que resulta da investigação, da comprovação, da argumentação, é uma verdade demonstrável aos outros, é uma verdade falsificável pelos outros, isto é, os outros têm todos os meios para tentar mostrar que aquela convicção é falsa. Qual é então o dever de um partido, político ou intelectual de um espaço público democrático? Devemos tentar transformar as nossas crenças privadas em convicções publicamente demonstráveis num eterno processo de correção do tiro. Sem esta humildade, caímos numa bolha tribal que recusa o chão comum da realidade empírica, caímos no desrespeito pelos outros, caímos e levamos para a lama um espaço público que se torna indiferente aos critérios da verdade. O PS está assim há quase uma década.
Enviar um comentário