sábado, 10 de setembro de 2016

Quando as crianças são cola

Inês Teotónio Pereira
DN 20160910

Há poucas coisas que nos liguem tanto às pessoas quanto as crianças. Alguém que cuide, que brinque, que goste de um dos meus filhos entra de rompante na minha vida como um dos meus melhores amigos. É uma espécie de amor à primeira vista. Não se quer saber de mais nada - chega e sobra que goste dos meus filhos para passar a ser uma das pessoas mais importantes da minha vida. Nós gostamos de quem gosta de nós, mas apaixonamo-nos por quem gosta dos nossos filhos. Tal como no amor à primeira vista, a razão não entra na equação. É tudo emoção. Nós pais somos fáceis. Apaixonamo-nos facilmente. No meu caso basta que a dona Juvenália atravesse a rua com um pacote de bolachinhas "daquelas que ele gosta" para eu dar ao "seu" Manel para me sentir mais leve e feliz. Como se o mundo estivesse finalmente em ordem e a dona Juvenália a protagonista principal. O mesmo com a Riquita que, de Angola, me pergunta regularmente pelo "meu bebão" de um 1,8 metros de altura. No outro dia quase chorei quando encontrei a professora Filipa e me lembrei da história do "lápis mágico" que encantou um dos meus filhos e o tirou da obscuridade em que vive quem não consegue aprender a ler. E choro sempre quando leio a carta que o professor João escreveu a um dos meus filhos em que garante que ele vai ser um "homem de grande carácter". Tenho uma amiga que chegou a minha casa com um saco de doces vindo do nada e os distribuiu pela criançada tal e qual o Pai Natal. As crianças ainda hoje se lembram dela, apesar de não a verem há anos. E eu, que também não a vejo há anos, sou uma das suas melhores amigas (embora ela não saiba). Também há a Cláudia, a Rosa, as Veras que os abraçam como se fossem seus filhos. E eu comovo-me. Dizia o meu amigo Henrique Raposo que as crianças são cola nas relações humanas, ao lembrar-se comovido da dona Alice da mercearia que está doente e que todos os dias oferecia guloseimas às suas filhas quando elas lá passavam a caminho de casa. No meu caso as crianças são mais do que cola, elas são as próprias setas do Cupido.
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