domingo, 18 de setembro de 2016

Vergonha? Disse vergonha?

Helena Matos
18/9/2016

Quando a sala socialista rompeu num aplauso após Mariana Mortágua ter defendido o seu modelo leninista de confisco, estamos perante um facto que nos vai marcar no futuro: o PS deixou de ser confiável.

“Temos de perder a vergonha e ir buscar a quem está a acumular dinheiro”. Quando Mariana Mortágua acabou de pronunciar esta frase “a sala socialista rompeu num aplauso.” Repito “rompeu num aplauso”.
E agora? A boçalidade de quem olha para a sociedade numa perspetiva recoletora subjacente ao raciocínio de Mariana Mortágua é evidente e nada tem de novo. Para a esquerda radical, de que a deputada faz parte, a riqueza não se gera, caça-se. Em algum lado a presa/riqueza há-de estar: antes nacionalizava-se e ocupava-se. Agora taxa-se. Alguma vez a esquerda radical concebeu outra forma de governo e de financiamento que não passe pelo confisco? Primeiro dos banqueiros, dos latifundiários, dos capitalistas, das multinacionais e dos grandes grupos económicos que iam pagar a revolução, o socialismo à portuguesa, a aliança com o Terceiro Mundo e os países não-alinhados… Depois, quando os banqueiros e os capitalistas ficaram descapitalizados, os grandes grupos económicos sucumbiram às mãos da incapacidade das comissões ditas de gestão e desapareceram o Terceiro Mundo mais os países não-alinhados, já seriam apenas os ricos a pagar agora não a revolução mas sim a crise. Havia sempre ricos. Muito ricos. Lucros fabulosos… Agora já vamos simplesmente em quem poupa. Ou, parafraseando Mariana Mortágua, em “quem está a acumular dinheiro”. Mas será acumular muito ou pouco? Ou este ano incide-se em quem acumulou muito e para o ano que vem ataca-se quem acumulou um pouco menos? Afinal é a própria atitude burguesa do acumular para transmitir aos filhos – e ser muito ou pouco não interessa – que está em causa. Qual o limite? Não há. Porque cada vez vão precisar de mais dinheiro e cada vez ele será mais escasso. Vão multiplicar-se os dias de manicómio como aquele em que de manhã nos é anunciado um imposto para os “proprietários ricos” pelo BE, à tarde o PCP declara que também tem uma proposta para outro imposto sobre o imobiliário e de caminho, para que não nos falte nada, o PAN pretende obrigar a toque de multas os proprietários a aceitar animais em casa e a CML discute a responsabilização dos proprietários dos prédios afetados pelos graffitis. (A estes, não lhes bastando já terem a sua propriedade desfigurada ainda vão passar a ter de avisar rapidamente a autarquia do ocorrido cujos técnicos sabiamente decidirão se se está perante um caso de arte urbana, que o proprietário ainda se arrisca a ter de conservar, ou de vandalismo que acabará a ter de reparar).
Os únicos que se podem chocar com o primarismo civilizacional das palavras da deputada Mariana Mortágua são aqueles que se quiseram enganar. Que acreditaram e quiseram fazer acreditar que o Louçã que fala com tanta assertividade nas televisões privadas e que agora até põe gravata para ir ao Conselho de Estado, que a deputada Mortágua que até tinha estudado em Londres mais a Catarina que é tão simpática… não tinham nada a ver com aquela loucura de 1975 nem com outras loucuras acontecidas antes e depois noutros lugares do mundo.
Ora esquerda radical não mudou nada. Simplesmente costumizou-se para televisão ver: os maoistas e trotsquistas deixaram de ler Mao e Kadhafi e já não fazem protestos à porta dos festivais de cinema e outros desfiles. Puseram laço, tornaram-se fashion e na passadeira vermelha debitam contra a austeridade ou outro assunto que bate sempre bem com as luzinhas, como os refugiados, a fome, a discriminação das mulheres (no mundo cristão, naturalmente, porque quanto ao muçulmano o caso é bem outro). Os estalinistas, para mais libertos do embaraço da URSS, organizam festivais com rock como música de fundo para criticar a exploração dos trabalhadores no regime capitalista…
Na verdade, como acontece com os fanáticos de todos os tempos, eles são os donos das palavras e nunca são confrontados com a barbárie implícita aos seus atos mas tão só com a bondade das intenções que apregoam. Esta gente, cujas ideias só geraram pobreza, totalitarismo e atraso, esta gente que nunca criou um posto de trabalho, que vive do Estado e para controlar o Estado, goza, com a conivência de todos nós, do direito a falar em nome de todos aqueles cujas vidas literalmente desgraçam. Apresentar Arménio Carlos ou Jerónimo de Sousa como defensores dos trabalhadores faz tanto sentido quanto aplaudir aquelas delegações unicamente compostas por homens que a Arábia Saudita envia às conferências sobre os direitos das mulheres. Não sei se na Arábia Saudita se acha normal o inaudito dessas representações mas sei que aqui estes homens cujo único propósito é blindar os privilégios da sua seita são todos os dias apresentados como representantes dos desfavorecidos.
Logo não houve nada de novo nas palavras de Mariana Mortágua. O que não quer dizer que naquela sala onde se tratava do tema “as esquerdas e as desigualdades” (a desigualdade, para mais pluralizada, vai ser o chavão dos próximos tempos) não tenha havido uma novidade. Uma novidade com que teremos de aprender a lidar no futuro: a destruição do PS enquanto partido democrático. Quando lemos que “a sala socialista rompeu num aplauso” após Mariana Mortágua ter apresentado o seu modelo leninista de sociedade, estamos perante um facto que nos vai marcar no futuro: o PS deixou de ser confiável.
Quando Mariana Mortágua declara “Temos de perder a vergonha” não fala de si mesma nem da sua gente, que em matéria de ir buscar dinheiro onde ele existe nunca tiveram vergonha alguma. Fala sim para o PS e só para o PS. Um PS que a extrema-esquerda acredita ter tomado por dentro. Dir-me-ão que o PS pelo contrário almeja engolir a extrema-esquerda. Mas essas são questões aritméticas que apenas aos próprios dizem respeito. Politicamente o caso é bem outro e afeta-nos a todos: que partido é este PS que rompe em aplausos após escutar uma proposta que até há alguns anos indignaria os seus dirigentes?
Dir-se-á que as pessoas que estavam naquela sala não representavam o PS. Que existe um PS que um dia quando este delírio acabar explica a Mariana Mortágua que um governo de bem não vai buscar dinheiro onde ele existe, antes propõe-se criar condições para que se gere mais riqueza. Mas aí é que está a questão. Portugal está a pagar um preço muito caro por ter deixado o PS colocar o contador a zeros em 2011. Sócrates foi o que foi e os socialistas não só se calaram para lá do moralmente possível como rompiam em aplausos de cada vez que ele anunciava mais um cheque-bebé (onde andam esses cheques?), mais um TGV, mais não interessa o quê porque o que interessava era o evento. Agora mantêm-se em silêncio perante o grotesco do que se sabe sobre a vida de Sócrates mas não perdoam a Carlos Alexandre que faça o seu dever, tal como não o perdoaram a Souto Moura. (Em Portugal, os juízes só merecem respeito se não tocarem no PS. Aí levam e não levam pouco.)
Depois os socialistas fizeram de conta que não tinham sido eles a negociar o pedido de ajuda externa e andaram anos a gritar contra a troika como se a crise instalada no país tivesse sido uma criação de Passos Coelho. Agora, ao ouvirem Mariana Mortágua dizer-lhes para perderem a vergonha e abraçarem um modelo totalitário, romperam num aplauso. Um dia virá em que vão fazer de conta que não foi assim…
Sentados no poder, confortados pelas sondagens e descontraídos pelo silenciamento das corporações do protesto (momento norte-coreano esse de Mário Nogueira a manifestar o seu regozijo pelo feliz início do ano escolar!) os socialistas não sabem quando vai chegar o futuro – o momento em que o choque com a realidade se vai impor – mas querem acreditar que vão poder ser os primeiros a lutar contra aquilo que eles mesmos provocaram. Funcionou em 2011 e pode funcionar outra vez. Pois pode. E é precisamente aí que entra a vergonha ou mais precisamente a falta dela. Quando alguém perde a vergonha o problema maior não é dela mas sim dos outros. Ou de um país.
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