quinta-feira, 1 de setembro de 2016

Perder a cor

João César das Neves
DN20160901

Dentro de dias as folhas das árvores começarão a perder a cor, e as viçosas paisagens do Verão tomarão tons sombrios. O mesmo acontece noutras áreas, onde as atitudes democráticas parecem caducas.

A Turquia permaneceu décadas um raro exemplo de democracia islâmica, demonstrando a compatibilidade entre a cultura muçulmana e os valores contemporâneos. Agora a ambição de um homem lançou grave mancha no símbolo e prejudicou muito esse diálogo, crucial nos tempos que correm.
Aquilo que para Hitler foi o incêndio no Reichstag, a 27 de Fevereiro de 1933, e para Estaline o assassínio de Sergei Kirov, em 1 de Dezembro de 1934, parece ser para Erdogan o golpe falhado de 15 de Julho de 2016. Com truques típicos de tirano, o presidente da Turquia usou o alarme e a ameaça como pretexto para uma vasta purga que ainda dura. O resultado está a ser a imposição do poder de um homem que se revela muito diferente do que era.
Porque, é bom lembrar, Recep Erdogan não era um ditador. Líder de um partido islamita moderado, foi sucessivamente eleito para presidente da Câmara de Istambul em 1994, primeiro-ministro em 2003 e presidente em 2014, em geral com confortáveis maiorias. Devem-se--lhe várias medidas de liberalização, como a lei laboral de 2003, os esforços para assumir o genocídio arménio da I Guerra em 2005 ou as negociações no conflito curdo em 2009. Infelizmente, essas lembranças parecem amarga ironia, pela forma como o regime evoluiu. Como Mugabe ou Zuma, o que começou favorável azedou gravemente.
O tema não é secundário. Tal evolução no grande povo charneira entre Europa e Ásia, entre a União e o mundo islâmico, é assustadora. País associado da CEE desde 1963, candidato à adesão desde 1987, com negociações com a União desde 2005, as possibilidades de acordo são agora piores do que nunca. Recentes aproximações ao Irão e Rússia ameaçam desequilibrar o que sempre foi um delicado compromisso regional. Logo na altura em que o diálogo entre Ocidente e islão é decisivo.
A dúvida sobre a compatibilidade entre a cultura muçulmana e os valores abertos e democráticos não existe, por ser uma realidade há séculos. O islão não pode hostilizar o Ocidente, como não faz sentido o Ocidente agredir o islão. Os dois vizinhos estão fadados para se entenderem. Não será fácil, como não foi nos últimos 1300 anos, mas é possível, como se viu repetidamente em 1300 anos. Para isso basta que cada uma das culturas regresse aos valores de tolerância, negociação e cordialidade que estão no centro das suas doutrinas. O Partido Justiça e Desenvolvimento turco (AKP) foi um bastião desses valores até há pouco. É terrível ver a Turquia abandoná-los.
O problema não é só de um lado. Quando o primeiro-ministro francês, na entrevista de 17 de Agosto ao La Provence, afirmou que o fato-de-banho islâmico (burquíni) "não é compatível com os valores da França e da República" está a ser ridículo, intolerante e extremamente perigoso.
Ridículo porque os valores da França e da República certamente não se estendem a roupa de praia. Se, na época em que Manuel Valls nasceu, há 54 anos, algum político tivesse dito que o biquíni não era compatível com os valores da França e da República seria chamado idiota. Porquê hoje com o burquíni, aliás muito parecido com os fatos--de-banho que toda a França usava há cem anos?
A intolerância fica evidente por um primeiro-ministro apoiar a proibição de roupa que pessoas livres decidem usar. A questão, como explicou na entrevista, é "uma visão arcaica do lugar da mulher no espaço público". Claro que Valls tem o direito de achar isso, e muita gente lhe dá razão. Mas a tolerância só se aplica em situações de forte discordância. O primeiro--ministro francês é intolerante só por achar que a proibição é maneira razoável de lidar com tais "visões arcaicas". Felizmente esse traje não ofendeu os valores olímpicos, como se viu na equipa feminina egípcia de voleibol de praia.
Acima de tudo, tal atitude num dirigente de topo europeu é extremamente perigosa. Porque, perante a proibição das autoridades municipais de Cannes, Villeneuve--Loubet e Sisco, o que acontecerá não é que essas muçulmanas passem a utilizar "indumentária republicana", mas que elas e as suas famílias deixem de ir à praia, prejudicando a sua integração na sociedade ocidental.
Atitudes como as de Erdogan e de Valls, mesmo com gravidade muito diferente, são parte do mesmo problema, que nos afecta a todos. O pior não são os estragos no diálogo Ocidente-Islão, mas mostrarem como é fácil a democracia perder a cor.
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