quinta-feira, 1 de dezembro de 2016

O colapso da decência

NUNO MELO   01.12.16   JN

A aprovação do voto de pesar pela morte de Fidel Castro na Assembleia da República, como alguém que "consagrou a vida aos ideais do progresso social e da paz", significou o derradeiro triunfo do ditador, sobre os valores de referência do regime democrático.
A extrema-esquerda que contesta a legitimidade da eleição de Donald Trump nos EUA teve sucesso na homenagem a um déspota cubano que, como é sabido, nunca contou um voto nas urnas, ao mesmo tempo que, na caricatura do absurdo, se manifestou sentada no hemiciclo, sem respeito nem educação, contra a visita amiga do rei legítimo de Espanha, acusado de nunca ter sido submetido a sufrágio.
Agiu a propósito, com a mesma facilidade com que grita "liberdade" de cravo ao peito em cada dia 25 de Abril, mas concretizou o 11 de Março e lutou para que o 25 de Novembro nunca visse a luz do dia.
Conseguiu para o tirano do Caribe o que negou por ocasião da morte de José Hermano Saraiva, perigoso doutrinador do Estado Novo nos "Horizontes da memória" da RTP, António Champallimaud, pecaminoso porque criou riqueza e empregos em Portugal, Jaime Neves, que do lado de Ramalho Eanes teve o topete de ajudar a consolidar a democracia nacional, ou Shimon Peres que, azar nítido, foi prémio Nobel da Paz a par de Yasser Arafat, mas era judeu.
Tratou-se também da mesmíssima extrema-esquerda que rejeitou o voto de congratulação pela libertação de Ingrid Bettencourt, sequestrada pelas FARC na Colômbia, sob argumento de que os terroristas é que estavam do "lado certo" da história.
Infelizmente, no centro-direita, não faltou quem tenha ido na conversa. Esqueceram-se, talvez, de que os "ideais do progresso social e da paz" descobertos no finado Fidel Castro podem ser medidos pelo número de opositores mortos ou desaparecidos, de partidos políticos que nunca puderam nascer, de cubanos impedidos de circular, de se expressarem livremente ou de se manifestarem, dos "balseros" afogados em condições miseráveis na esperança de se livrarem do jugo e da absoluta proibição da liberdade de Imprensa.
Em cada fotografia tirada ao lado de Fidel Castro, por líderes ocidentais fascinados pela ideia da moldura a ornamentar os armários lá de casa, o ditador foi ganhando anos de vida política, contados pela longevidade de um regime que Che Guevara ilustrou como poucos na ONU, em 11 de dezembro de 1964: Fuzilamentos? Sim. Fuzilamos e continuaremos fuzilando.
A Assembleia da República não se limitou a homenagear um tirano. Silenciou a justiça devida a cada uma das vítimas.


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