Silêncio Sofrido

TIAGO CAVACO   WWW.VOZDODESERTO.TUMBLR.COM


Em primeiro lugar, quero dizer-vos onde arranjei o livro “Silêncio” de Shusaku Endo. Foi no bazar da Igreja da Lapa, num sábado chuvoso de Dezembro com solarengas oportunidades de compra. Com dez euros apenas trouxe-o, mais três CDs (Madonna, Casa da Cidade e o último da Cristina Branco) e dois DVDs (Ensaio Sobre A Cegueira e Gangues De Nova Iorque). Quem diria que uma venda numa igreja protestante seria tão ecuménica em termos de bens de consumo?


Em segundo lugar, quero dizer-vos que “Silêncio” vai rebentar por conta do filme que está a estrear do Scorsese. Já folheei a reedição nas livrarias e, tendo em conta que o realizador foi ter com o Papa, tudo ao qual chamamos “actualidade religiosa” se dedicará a falar sobre a película. Apesar de “Silêncio” ter sido publicado em 1966, 2017 vai ser o seu grande ano.

Vamos ao livro propriamente dito. O melhor de “Silêncio” é a história. O relato é suficientemente emocionante para se aguentar por si. E aproveito esta afirmação para fazer um lamento: a coisa chata na maioria dos livros de agora é que eles deixaram de acreditar em histórias para suportá-las apenas na medida em que elas servem para acreditar que não há nenhuma história verdadeira a acontecer no mundo. Trocando isto por miúdos, diria que passámos a ser teleocépticos (descrentes de um sentido da existência), conformados com pseudonarrativas (apenas toleramos uma história que se submeta a valores supostamente mais altos que ela). É por isso que o cristianismo continuará a ser tão ameaçador quanto atraente - o cristianismo vê o Universo como uma grande história e isso hoje em dia é proibido pelo cinismo reinante. No caso de “Silêncio”, o livro é aprovado na medida em que alegadamente critica a passividade divina diante do sofrimento humano. Mas o melhor de “Silêncio” não é o seu apuro teológico (nesse sentido, o livro é medíocre). O melhor de “Silêncio” é o seu apuro técnico, de saber colocar acção escrita de uma maneira irrepreensível.

A editora de “Silêncio” (que não me recordo agora qual é) coloca um slogan desastroso na contra-capa, dizendo que o livro é alguma coisa como “uma história contra o fanatismo”. As pessoas que tiveram esta ideia devem perceber tanto de religião como eu percebo de bailado russo. Se o melhor de “Silêncio” for acerca do fanatismo, então é um livro falhado. E porquê?

Olhemos para a trama. Sebastião Rodrigues é um padre jesuíta português que segue clandestinamente para o Japão após a notícia das perseguições contra os cristãos se terem intensificado ao ponto de Ferreira, um clérigo que havia sido seu professor, ter apostatado. O que lhe vai acontecer fica para o leitor descobrir, mas posso adiantar que a história atravessa uma crise de fé no horizonte, tendo em destaque - voilá! - a questão de Deus se demonstrar silencioso perante o sofrimento dos que nele crêem. Mais ainda: a determinada altura Rodrigues pensa: “e, se por hipótese, Deus não existisse mesmo? Hipótese aterradora! Se Deus não existisse, como tudo se tornaria ridículo.” E o ridículo aplicar-se-ia, é bom entender, ao martírio terrível dos cristãos japoneses que davam a vida pela sua fé. Segundo as agendas literárias, este é o grande assunto que torna “Silêncio” tão relevante: o sofrimento invalidar o sentido para a fé. É um erro.

“Silêncio” de Shusaku Endo não faz tremer a fé cristã à custa do silêncio de Deus porque o livro que melhor faz tremer a fé cristã à custa do silêncio de Deus é a própria Bíblia. É por isso que se torna irritante ler “Silêncio” sob o pretexto de abalar os fundamentos cristãos. Oh, santa ignorância. O livro que questiona os fundamentos cristãos é o livro que serve de próprio fundamento ao cristianismo, minha gente! E é pelo facto de ser a própria Bíblia que questiona o silêncio de Deus que não é nenhum outro livro escrito dois mil anos depois que vai fazer tremer a fé dos cristãos. Se alguém perder a fé por ler “Silêncio”, é apenas sinal de que nunca a teve.

No Livro de Job, do Velho Testamento, Deus dá-nos um “Silêncio” muito mais potente quando decide aceitar uma aposta do Diabo, jogada nos termos do Diabo, para provar ao Diabo que a fidelidade humana se avalia onde? Precisamente no silêncio de Deus. E depois, já no Novo Testamento, essa história é re-editada em novos níveis de potência quando Jesus, ele mesmo o novo Job, sofre amargamente diante de um Deus a quem chama Pai, que tem o poder para parar aquela tragédia toda e que, no entanto, se remete ao silêncio para que seja feita, precisamente!, a vontade dele e não daquele que a sofre. Shusaku Endo sabe disto muito bem, até porque repetidamente cita a paixão de Jesus e até mesmo Job. Os leitores de Endo é que parecem ser lentos de memória.

O triunfo de Endo, como já disse, é mais técnico que teológico. O facto de o padre Sebastião Rodrigues ouvir tudo, dos zumbidos das moscas aos relinchos de cavalos à distância, quando de Deus ouve zero, é um dispositivo urdido com competência narrativa. O facto de o padre começar por de tudo fugir para, no fim, estar entregue a um castigo parado, é outro dos dispositivos urdidos com competência narrativa. O facto de o Japão ser descrito como um pântano espiritual que apodrece tudo à volta, até o próprio cristianismo, causando que o final seja uma triste japanização do herói (sorry for the spoiler), é mais um dos dispositivos urdidos com competência narrativa. Correndo o risco de estragar tudo o que disse até agora, o melhor que levo de “Silêncio” é ele fazer-me lembrar o ritmo do “First Blood” do Stallone e do “Apocalypto” do Mel Gibson. É uma leitura que nos agarra pelos colarinhos, sim senhor.

Para terminar, gostaria de incentivar todos a crescermos um bocadinho. Eu não gosto de sofrer e ninguém gosta de sofrer. Mas o Século XX ocidental não se descristianizou porque, subitamente!, descobriu que sofrer era contraditório com acreditar num Deus amoroso. Caramba, isto é mesmo sinal que temos os antigos como burros. Tim Keller ajuda-nos neste ponto, no seu último livro “Making Sense Of God”, escrevendo:“apenas as sociedades seculares vêem o sofrimento como acidental ou sem sentido, apenas como uma interrupção ou destruição daquilo para o qual estamos a viver. (…) As sociedades ocidentais são talvez as piores sociedades na história a preparar as pessoas para o sofrimento e para a morte.”

O nosso problema actual com o sofrimento não vem do facto de nós hoje sermos complexos onde os antigos eram simples. Antes pelo contrário. O nosso problema actual com o sofrimento vem do facto de nós termos esta vida como única - se alguma coisa a ameaça, está tudo consequentemente estragado. Mas para todas as outras culturas que não têm esta vida como única, o sofrimento pode ser uma oportunidade e até um aperfeiçoamento, uma vez que ele não destrói toda a vida que há para viver. Na prática, quem simplificou tudo demais talvez sejamos nós quando concebemos que apenas esta vida serve de lógica para toda a existência. O livro “Silêncio” pode ter muito impacto para uma cultura mono-existencial como a nossa. Para os antigos como Job, não é nada de novo.
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