Um ‘annus horribilis’

RAUL DE ALMEIDA   JORNAL ECONÓMICO  20.12.16

Por comodismo, trocámos a verdade crua por uma dor pop e partilhável. Somos “Je suis” num dia e choramos as agruras do mundo agarrados ao CD póstumo do Bowie. Misturamos tudo e choramos a dor que dói menos.

Este é o meu último artigo de 2016 para o Jornal Económico. É, por isso, natural um balanço sobre este ano, que muitos já baptizaram como “ano negro” ou, invocando a Rainha Isabel II, o Annus Horribilis.
Morreram David Bowie, Prince, Leonard Cohen, Paul Bley e muitos outros símbolos que marcaram gerações e pareciam imortais.
Morreu, de forma violenta, a esperança numa Europa unida e abrangente às mãos de um Brexit que, afinal, ninguém parecia querer realmente.
Jô Soares foi dispensado da Globo e fez um programa memorável com Roberto Carlos, que um dia destes deixará inevitavelmente os palcos.
Morreu a esperança de uns Estados Unidos humanistas e universalistas, com a eleição de Trump, fruto em primeiro lugar do símbolo do “vício do sistema”, que Hillary Clinton encarnou na perfeição.
Acaba o consulado de Obama, ainda muito recente para análises desapaixonadas, mas que acredito vir a ser dos que ficarão para a história como mais positivamente marcantes da história americana.
A sucessão de factos de grande impacto mediático, as perdas que mexem com os afectos do nosso imaginário, têm a sua inegável importância, mas distraem-nos de outros acontecimentos, outras estatísticas bem mais crueis que a partida natural de um octogenário que nos enchia o espírito com a profundidade dos seus versos e a beleza dos seus acordes.
Para os portugueses, foi um ano de faz de conta, o primeiro em 41 anos de Democracia, desde o 25 de Novembro de 1975, em que forças políticas inspiradas em matrizes totalitárias, e assumidamente anti-democráticas, condicionam e comandam a acção do governo de Portugal. Ainda assim, parece que nada se passa, e os portugueses são distraídos com o perigo da extrema-direita austríaca que acabou afastada do poder pelo voto democrático.
O que fez realmente de 2016 um Annus Horribilis, e não “O” Annus Horribilis, foi a sucessão de acontecimentos terríveis, a massificação do horror, que de modo inconsciente nos habituámos a absorver e a digerir de forma incrivelmente rápida. A partida de Muhammad Ali, idoso e frágil, ocupa dias de espaço informativo, que nos captam dez vezes mais atenção do que qualquer massacre de inocentes no Iémen.
O que escurece realmente 2016, é o atentado à catedral cristã no Egipto matando barbaramente os fiéis que professam uma doutrina de paz, amor e perdão. É assistirmos impotentes a duas meninas que se fazem explodir numa cidade da Nigéria. É termos atentados selvagens no centro das nossas cidades, nos locais que lutámos para serem faróis de civilização e tolerância. É o êxodo de milhares e milhares, fugindo da morte e da intolerância cega e torturante. É a multiplicação alucinante de atentados e de mortes, a que demasiado rapidamente perdemos a conta. São os Cristãos perseguidos. São os Muçulmanos em risco e em fuga, às mãos de outros muçulmanos. São os Palestinianos emparedados. São os Venezuelanos famintos e inseguros. São as crianças mortas antes de nascer, em nome de um progressismo perverso. São todas estas e muitas mais desgraças determinadas pela discricionariedade de alguns, que atingem directa e indirectamente milhões de seres humanos.
Se pensarmos bem, a um dado momento do caminho preferimos os símbolos à realidade. Por comodismo, trocámos a verdade crua por uma dor pop e partilhável. Somos “Je suis” num dia e choramos as agruras do mundo agarrados ao CD póstumo do Bowie. Misturamos tudo e choramos a dor que dói menos, escolhemos o luto que dá menos trabalho, preferimos o sentimento de perda cosmopolita do artista ao do massacre empoeirado de milhares de anónimos. Até porque, pelos que escolhemos para tornar o nosso Annu Horribilis, sabemos que nada podemos fazer; enquanto que pelos outros…
Secretamente, acho que temos medo que 2016 não nos tenha deixado muitos actores, músicos, escritores, ícones disponíveis para naturalmente deixar o mundo em 2017. Temos medo que, com alguma escassez de símbolos, sejamos obrigados a olhar para a realidade.
O autor escreve segundo a antiga ortografia.
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