quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Em Alepo há uma fronteira da humanidade

FRANCISCO LOUÇÃ   21.12.16   PÚBLICO 


De resto, prudência. Nenhum jornalista independente conseguiu ter acesso a Alepo e não se sabe o que lá se passa. Prudência ainda, pois na Síria nada é o que parece. As mais improváveis alianças fazem-se e desfazem-se numa guerra em que a selvajaria é sempre maior do que o que conseguimos imaginar. Portanto, os únicos heróis são a população civil, ou o pessoal médico que resistiu aos bombardeamentos de Alepo, ou os que protegeram as vítimas. Nos dois campos militares, só o horror se confronta com o horror.


Em Alepo, a devastação da cidade lembra outros crimes desta dimensão e talvez por isso suscite estes momentos de emoção: isto é o que já vimos ou de que nos lembramos. Alepo é Faluja, ou os campos palestinianos de Sabra e Chatila, ou Grozni, ou Srebrenica, ou Gaza, ou também Varsóvia ou Guernica, os lugares onde um manto de bombas destroçou a vida das populações, alvos e reféns da guerra mais suja. Mas Alepo é também a nossa contemporânea Mosul, depois da chacina dos Yazidis pelo Daesh e onde os civis continuam aprisionados. Alepo é uma das vergonhas do século XXI e não é única.

Por isso, contra qualquer calculismo de alinhamento político nestes campos internacionais em que naufraga a razão, uma palavra de aviso: a única questão decisiva que está em causa é saber se a ONU consegue ajudar a proteger a população civil, ou se os vencedores da batalha, Al-Assad e Putin, permitem a salvação destas pessoas, ou se as milícias que governaram a cidade aceitam as garantias essenciais para a retirada das pessoas. A população é a única parte da guerra civil que não é guerra. Salvá-la é uma fronteira para a humanidade.
De resto, prudência. Nenhum jornalista independente conseguiu ter acesso a Alepo e não se sabe o que lá se passa. Prudência ainda, pois na Síria nada é o que parece. As mais improváveis alianças fazem-se e desfazem-se numa guerra em que a selvajaria é sempre maior do que o que conseguimos imaginar. Portanto, os únicos heróis são a população civil, ou o pessoal médico que resistiu aos bombardeamentos de Alepo, ou os que protegeram as vítimas. Nos dois campos militares, só o horror se confronta com o horror.

As milícias rebeldes são uma cornucópia de grupos políticos e de chefes militares cujo projecto é a destruição da Síria e a sua partição em protectorados. Será certo que, em 2014, o Daesh foi expulso da província, mas é um grupo que foi próximo da Al Qaeda, que tomou o nome de Al-Nusra e depois Jabhat Fateh Al-Sham, que dirige as operações militares em Alepo ao lado de milícias pró-turcas e outras. Portanto, ver os Estados Unidos a apoiar uma força militar do tipo da Al Qaeda só será surpreendente para quem não se lembre da história do apoio de Washington aos Talibans  no Afeganistão (e portanto à Al Qaeda nas suas origens), durante a ocupação russa. E depois temos a Arábia Saudita, o Qatar, o Egipto, a França e a Turquia, e, sem pasmo, Israel, a apoiar estas milícias. Alguns dos piores inimigos juntam-se nesta empresa.

Do outro lado, a Rússia e o Irão, as duas potências emergentes no Médio Oriente, mas também a extrema-direita europeia com Le Pen à cabeça, ou Fillon, a garantirem a sobrevivência do regime de Bashar-al-Assad. Mas, como lembra um jornalista veterano da região, Washington já utilizou os préstimos de Al-Assad enviando-lhe prisioneiros da guerra iraquiana, para serem torturados nas prisões que agora a diplomacia norte-americana denuncia. O homem de Damasco era até há pouco um parceiro fiável. A política nem sempre é o que diz ser.
E depois, para confundir ainda um pouco mais o cenário, temos Trump, amigo de Putin, a tomar posse dentro de poucas semanas, razão para a precipitação da ofensiva militar do regime sírio, que quer conquistar a zona ainda antes da cerimónia de Washington. De todos os pontos de vista, Al-Assad, Putin e os governantes de Teerão são portanto os vencedores da batalha de Alepo, onde tinham toda a superioridade militar (as milícias não têm tanques, nem aviões, nem mísseis anti-aéreos). Foram eles que salvaram a família Al-Assad quando em 2011 multidões de jovens invadiram as praças, reclamaram a queda do regime e foram massacrados.  
Assim sendo, prudência. Os campos desta guerra são tenebrosos. Salvem-se as vítimas de Alepo, agora é o que importa. 
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