sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Ajudar as pessoas a viver a beleza

MARIA JOSÉ VILAÇA       01.12.16       INTERVENÇÃO NO SÍNODO DIOCESANO DE LISBOA

O Dicionário de Oxford elegeu como palavra do ano para 2016 pós verdade que se define como "Relacionada com ou que indica circunstâncias nas quais os factos objectivos têm menos influência na formação da opinião pública do que os apelos à emoção e a crenças pessoais”. Esta é a mentalidade que domina no mundo ocidental. E a comprová-lo, os acontecimentos recentes a propósito de uma entrevista que dei à Familia Cristã. Mas os mesmos fizeram-me reflectir sobre a urgência desta pergunta: como pode a Igreja enfrentar os embates do laicismo, do islão, da perseguição religiosa, do esoterismo, do problema demográfico, da defesa da vida e da ideologia do género? 
Acredito que a resposta está na educação da pessoa e na centralidade da Pastoral da Família.

1 - Vivemos hoje em dia uma crise de relação com a realidade: perdemos a confiança na experiência que fazemos, ou seja, na possibilidade de conhecer e amar cada coisa tal como nos é dada e como é. Facilmente reduzimos as coisas à sua aparência e, não conhecendo verdadeiramente o que as coisas são e donde vêm, o que prevalece é a desconfiança, o temor e o negativismo - ao nível afectivo, profissional, político, etc. É fácil perceber que, no contexto familiar, isto tem consequências desastrosas: as relações conjugais são frágeis, o modo como os pais educam os filhos é inseguro, a família não tem energia missionária, etc. Vive-se como se Deus não existisse e viver sem Deus coloca-nos à mercê do poder político totalitário.

2 – Que serviço deve prestar a Igreja ao mundo? A fé em Jesus Cristo tem de adquirir uma dimensão cultural, de construção social e de constante juízo sobre a realidade. Para conseguir isso a Igreja tem de assumir a sua responsabilidade educativa. Um homem educado não receia os desafios da realidade e não se refugia em ideologias. Sem medo, procura a verdade, ousa amar e afirmar a sua fé. 

3 – Por definição, quem educa é a familia. 
a) No passado dia 20 o Papa Francisco recomendava aos sacerdotes participantes no Congresso organizado pela Congregação para o Clero para não esquecer o “centro de pastoral vocacional” que é a familia: “Igreja doméstica e primeiro e fundamental lugar de formação humana” onde pode germinar “o desejo de uma vida concebida como caminho vocacional”, elencando depois os outros contextos comunitários onde somos educados na relação com os outros “escola, paróquia, associações, grupos de amigos”. 
b) Sabemos como é importante no sucesso do matrimónio, a experiência de familia que temos. Já não é um dado adquirido que os jovens queiram constituir família. Por isso, é preciso promover o encontro dos jovens com famílias felizes.
c) O ensino da fé começa em casa. Não é uma catequese tipo escola que vai resolver a lacuna da familia. Como tornar a catequese uma experiência de familia?
d) A familia cuida dos seus. Dos bebes acolhidos com alegria, dos mais velhos que querem partir rodeados pela familia, dos doentes que querem ser tratados pela familia, dos desempregados que encontram na familia a esperança. Então deveríamos sustentar a familia nesta tarefa e não substitui-la.
e) Na familia vive-se o dom de si na entrega pelo bem comum, essencial para gerar o desejo de intervir na sociedade e na política. 

4 - O nosso objectivo é que a família seja realmente o rosto humano de Deus na terra. Por vezes receio que a Pastoral da Igreja se confunda com uma organização de prestação de serviços sociais, formatada e departamentada à semelhança das organizações públicas ou empresariais. Como escapar desta organização para oferecer o serviço como se oferece o amor numa familia? 
Hoje, para podermos olhar o futuro com confiança, é preciso reavivar a memória da presença de Cristo e proclamar a esperança. Esta é a missão da família. Como pode a Igreja ajudar as famílias, sem as substituir? 

A este propósito cito Stephan Kampowski, professor de Antropologia Filosófica, Instituto JPII. «Há uma forma errada de conduzir a pastoral na Igreja: tentar resolver os problemas. Em vez disso a pastoral deve conter uma proposta positiva: ajudar as pessoas a viver a beleza.»
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