quinta-feira, 3 de novembro de 2016

A fraqueza de Francisco

JOÃO CÉSAR DAS NEVES   DN  03.11.16

O encanto do Papa Francisco torna-o mundialmente popular. Apesar disso, alguns criticam-no veementemente. Isso é normal e aconteceu com todos os antecessores. Menos habitual é que entre os mais exaltados estejam cristãos devotos e piedosos, acusando-o de desvirtuar elementos centrais da doutrina católica, dividir a Igreja e introduzir erros no ensinamento revelado. A imputação é grave, mas será verdadeira?
As censuras não se justificam com base nos documentos doutrinais do pontificado. O Papa Francisco já publicou grandes textos de referência, duas exortações apostólicas e duas encíclicas, que se contam entre os textos mais fiéis, profundos e belos da Igreja das últimas décadas; e isso é dizer muito, dada a longa sequência de notáveis ensinamentos papais.
No tão controverso tema da família e da sexualidade, por exemplo, o Papa convocou dois sínodos, cujo resultado foi a exortação Amoris Laetitia, o maior documento pontifício da história. Nele está a afirmação clara e inequívoca da doutrina católica: do divórcio (41, 123, 246) às uniões de facto (52, 212, 294) e casamento homossexual (52, 251); da ideologia do género (56), feminismo (54, 173), homossexualidade (250), manipulações genéticas (56), preservativo (68, 82, 222), aborto (42, 179), eutanásia (48, 83), etc. As posições da Igreja, hoje violentamente atacadas, são retomadas numa linguagem clara, colorida e espiritual. Não pode haver dúvida acerca da sua ortodoxia e de como este documento ajuda os cristãos a compreender e a explicar a sua moral.
As censuras, porém, não surgem a esse nível. Os críticos, em geral, admitem que as afirmações dogmáticas de Francisco são correctas. O pomo de discórdia está sobretudo nas suas atitudes, alegadamente ambíguas, que minam esses pronunciamentos. As acusações referem que, ao ser confrontado com casos reais e situações específicas, a firmeza de doutrina parece posta em causa, pela reacção tolerante e ambivalente do Papa. Não é no campo dos princípios, mas nas aplicações práticas que, dizem, ele cede, desliza, transige.
Porque o faz? Em todos os casos citados existe sempre um elemento comum: pessoas a sofrer. Este é o núcleo central do carácter do Papa, a fraqueza de Francisco. Defrontado com dor pessoal, abandona o resto e fixa-se na compaixão concreta por essa alma. Afinal a censura pode ser resumida numa frase: "Este homem acolhe os pecadores e come com eles" (Lc 15, 2).
Francisco conhece, defende e proclama a doutrina da Igreja sobre todos os assuntos, do capitalismo ao adultério, do celibato à ecologia. Ele acredita mesmo que essa doutrina é o único caminho verdadeiro para a salvação de todas e cada uma das pessoas. Tem-no repetido inúmeras vezes na sua inconfundível e interpelante expressão. Isto não é posto em causa quando acolhe os pecadores com misericórdia e compaixão. Como Cristo, odeia o pecado mas ama o pecador.
Atribuir ambiguidade ao Papa leva a perguntar: seria Jesus a favor da prostituição? Do abuso fiscal? Da violência e ladroagem? Em dois mil anos de história, nunca ninguém sensato deduziu, dos encontros misericordiosos de Cristo com pessoas em flagrante transgressão, uma conivência com esses males. A mulher trazida ao Templo fora apanhada em flagrante adultério. Não havia dúvida quanto à sua culpa nem quanto ao castigo que a Lei santa estatuía. Jesus não põe nenhum desses elementos em causa nem pactua com o terrível mal que lhe foi presente. Mas libertou a mulher, dizendo-lhe para não pecar.
No voo de 2 de Outubro, o Papa descreveu um encontro com um casal transexual. Terminou dizendo: "A vida é a vida, e as coisas devem-se acolher como vêm. O pecado é o pecado. (...) Por favor, não digais: "O Papa santificará os transexuais." Por favor! Porque eu vejo já os títulos dos jornais... Não digam isso, isso não." A questão não é teórica, mas encontro pessoal. São coisas diferentes.
Os temas são complexos, o equilíbrio difícil e muitos andam confusos. Aos cristãos devotos e piedosos exige-se que estudem os documentos da Igreja para esclarecer com ideias sólidas, aplicadas seguindo Jesus e o Papa. No caso da comunhão dos divorciados recasados, a Eucaristia é santíssima e o Matrimónio indissolúvel. Quem comunga assume uma responsabilidade enorme, pois fazê-lo indignamente é inaceitável. Ao vê-lo, ouço uma voz que me diz: "Aquele que estiver sem pecado, aquele que nunca fez uma comunhão distraída, irritada, indigna, blasfema, atire a primeira pedra." Isso a mim faz-me cair de joelhos em horror e confusão pelos meus pecados.
Enviar um comentário