quarta-feira, 9 de novembro de 2016

A vitória de Trump e o muro que separa média e sondagens do eleitor

RR  09.11.16
"Foi uma noite completamente surpreendente, chocante num certo sentido", diz Bernardo Pires de Lima.
A vitória “surpreendente” e “chocante” do candidato republicano Donald Trump nas presidenciais nos Estados Unidos revela um enorme desfasamento entre sondagens, meios de comunicação social e o eleitor real, disse o investigador Bernardo Pires de Lima.
O candidato do Partido Republicano, Donald Trump, venceu as eleições presidenciais, ao conquistar mais de 270 grandes eleitores (o número mínimo necessário) do Colégio Eleitoral, órgão que elege o chefe de Estado norte-americano. Trump será o 45.º Presidente dos Estados Unidos.
“Foi uma noite completamente surpreendente, chocante num certo sentido, que revelou um enorme desfasamento entre as linhas editoriais dos principais órgãos de comunicação americanos e a grande indústria das empresas de sondagens, e a realidade do eleitor”, afirmou à agência Lusa o investigador do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa (IPRI-UNL), a partir de Washington.
Numa primeira análise aos resultados da longa noite eleitoral americana, Bernardo Pires de Lima indicou que existiu um exagero sobre o apoio que determinados e anteriores eleitorados do Presidente democrata Barack Obama, como os afro-americanos, os "millenniums" (jovens) e as mulheres iriam dar à candidata democrata Hillary Clinton, a grande derrotada das presidenciais.
Existiu também, segundo o especialista, “uma falta de leitura ou uma leitura errada” que “desprezou, provavelmente, o eleitor branco de Trump que estava escondido, que não vinha nas sondagens, que não vinha nas amostras”.
“Isso acaba por ser uma segunda volta do referendo inglês [Brexit], no sentido em que as sondagens também falharam em Inglaterra e não mediram o pulso a um enorme segmento do eleitorado”, prosseguiu.
A força dos ímpetos proteccionistas
Para Bernardo Pires de Lima, a noite eleitoral nos Estados Unidos espelhou a “dissonância entre a medição do pulso eleitoral e a realidade, e marcou profundamente um fim de uma era, uma era em que os Presidentes norte-americanos eram os líderes do mundo livre – como são apelidados – e hoje temos um Presidente eleito apoiado pelo Ku Klux Klan [movimento de supremacia branca], que tem um discurso antiliberal aberto, proteccionista, nacionalista, de medo”.
E salientou que esta figura (Donald Trump) não é exclusiva dos Estados Unidos.
“À medida que vamos temporizando e desprezando o que vai acontecendo em vários países, desde a Hungria, à Polónia, à Rússia, à Turquia, a França, ao Brexit, achamos que as instituições vão contendo estes ímpetos proteccionistas, nacionalistas e xenófobos. Quando damos por ela, há um Trump que é eleito”, frisou.
“Temos aqui um exemplo paradigmático do falhanço da moderação política, da forma de fazer política tradicional e de passar a mensagem da moderação”, concluiu o investigador.
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