sábado, 12 de novembro de 2016

A democracia capturada

Mª JOÃO AVILLEZ  OBSERVADOR  10.11.2016
O homem assusta? Claro. Mas convenhamos que se lidou com ele da pior maneira. Preferiu-se, durante 2 anos, triturar Donald Trump com insultos em vez de atender a quem olhava para ele para ser atendido.
1. E pronto. Cá estamos. Onde? Não se sabe, ninguém sabe. A meio caminho entre o conhecido e o desconhecido, gasto o primeiro, por estrear o segundo. Mas ao menos, há isto: somos testemunhas – e parte – de um momento fortíssimo na vida das sociedades. Em directo e ao vivo, temos os pés periclitantemente assentes num mundo que ameaça implosão e o olhar colocado noutro, em gestação e ainda sem nome de baptismo.
O segundo mundo ganhou este round ao primeiro, mas em vez de se insultar Trump é mais racional refazer o puzzle, juntando algumas peças ainda desarrumadas e tentando percepcionar outras: que o centro politico se rarefez, que a democracia se deixou aprisionar pelos seus próprios extremos, que os expulsos do sistema, os que ficaram para trás, confinados com o vazio como horizonte, transformaram a raiva e abandono em votos, democráticos, aliás. Não vale a pena desprezar a América de Trump, e o seu voto “errado”, confundindo-a com o fim das instituições norte americanas (que nunca irão ao ar de uma penada) e temendo até o derrube das suas traves mestres. Já valerá a pena lembrar que todos os assomos de arrogância (política, intelectual, cultural) não impedem a vontade de um votante quando ela é imensa e determinada. Foi contra o efeito dos “donos” e dos bem pensantes que a América votou: os donos do emprego fornecido por uma globalização sofisticadamente bem sucedida; os donos do povo que vota “bem”, da cidadania “convenable”, da “boa” democracia; do “nojo” bem pensante das grandes manchetes dos grandes “medias”; do casal Clinton e da sua Fundação rica, poderosa (paga por seja quem for, desde que paga).
Trump assusta? Claro. Mas convenhamos que se lidou com ele da pior maneira. (Por cá ouvi dizer que ele ia acabar com o “ocidente”. Por cada mil vezes que escutei isso, teria gostado de ouvir evocar a realíssima ameaça dos radicais islâmicos sobre o mesmíssimo ocidente. Por exemplo).
2. Devíamos ter aprendido. Isto de agora andarmos pelos cantos entre lamúrias a fazer das sondagens cómodos bodes expiatórios para uma (falsas) surpresa, é quase risível. Há quanto tempo é que as sondagens se enganam e nos enganam? David Cameron ia perder para os Trabalhistas e ganhou tanto que despediu Clegg e dispensou coligações; anos antes, no inicio dos anos noventa, a vitória de Major ia matando de espanto a Grã-Bretanha: os “conservadores envergonhados” tiveram vergonha de dizer em quem votavam. Há meses o Brexit ia perder, lembram-se? E ontem Trump também. Devíamos ter aprendido que as pessoas se defendem do voto “contra o ar do tempo”, mentindo. Ou simplesmente recusando confessar que votam contra o que está, um facto- muito visível no mapa das sondagens -que pelo menos teria servido de aviso vermelho luminoso mas não: preferiu-se, durante quase dois anos, triturar Trump com insultos. Em vez de atender a quem olhava para ele para ser atendido.
3. O homem assusta, sim. (Hillary repelia-me, é verdade). Thank God não sou americana.
Mas hoje de madrugada fiquei na dúvida: quem era aquele tipo cordato cumprimentando a adversária e pedindo a união dos americanos? Proibindo-se a si mesmo o improviso soez e a gesticulação truculenta e em vez disso, oferecendo a concórdia? Se a “normalidade” exibida me esbateu alguns temores, a agenda política que ele tem em cima da mesa da sala oval, quase me tira o sono e o seu duvidoso critério, ainda mais. Esperar para ver. Ver para entender. Entender que pontos cardiais, que escolhas, que prioridades. Com a terrível consciência de que preciso, precisamos, da América (e note-se como todas as intervenções de Chefes de Estado europeus ouvidos entre ontem e hoje foi isso que exprimiram). Isto é, a inquestionável manutenção dos laços transatlânticos.
4. O que passou esta semana em Lisboa com a Web Summit, não foi vulgar. Participação, energia, desafio, risco. Razões para agradecer a quem ontem teve a ideia e para festejar hoje a sua concretização. Geradora oxalá, de resultado sólido para lá dos confettis, do sangue na guelra e do acaparador fascínio tecnológico mas fosse como fosse, deu gosto. Destoou: foi um oxigenado entre parêntesis ver tanta gente com vontade de se desinstalar num país tão cronicamente instalado. Com o pouco afinco com que por cá se encara o esforço, o pouco afã com que se lida com o risco, e o pouco gosto com que se considera o mérito, ver um e outro e outro em acção, carburados por gente de trinta anos, consolou-me da tão acomodada letargia vigente. Essa do está tudo bem, ninguém nos maça, deixa andar. A mesma de uma sociedade demissionária, isto é, a da sociedade da geringonça.
5. Nunca o vi, nunca ouvira o seu nome, ignorava até há dias a sua existência. Mas tenho um bocadinho de vergonha por António Domingues e pelo que lhe andam a fazer. Foi vil e oportunisticamente enganado pelo poder político, trocaram-lhe as voltas, mudaram-lhe as regras e os preceitos com o campeonato a decorrer, não honraram a palavra dada, enxovalham-no diariamente na praça pública. Chega (digo eu). Admira-me que ele não o diga, mas provavelmente é um patriota.
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