segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Porque é que os portugueses odeiam Trump

ANDRÉ RIBEIRO DA CUNHA      11.11.16       OBSERVADOR  
O que é Donald Trump para os portugueses? É o mau que nos faz sentir bons. É uma agulha num nervo da pretensão portuguesa: é homem, branco, rico, rude, ignorante, não se preocupa com o que diz...
Que maravilha, o ter razão! Num mundo repleto de opiniões e de virtualismos, uma verdadezinha vê-se como o oásis que dança ao longe no tórrido calor do deserto. Um ponto onde todos dizem sim – quão agradável concordar com os companheiros e amigos – refresca talvez as relações de dificuldades passadas ou serve como fortalecedor de ligações recentes. O curioso nesta verdade, uma verdade fantástica pela sua simplicidade de compreensão, acessível à mais jovem criança e partilhada até pelos veteranos professores acadêmicos, é que é uma verdade pura, não criticável, intuitiva, natural; não carece de explicações, é tal qual um relatório médico.
Ainda não disse a verdade sobre Trump? Trump é mau! Cá está. Ora, haverá quem não odeie o Mau? E quem precisa justificar o ódio ao mau? Quem procura no discurso adversário argumentos válidos? Não é insultuosa a mera ideia de podermos ser persuadidos, ou até com ele concordarmos?
Desde os povos pagãos mais antigos os espíritos maus sempre foram tomados como mais inteligentes que os homens, eram capazes de seduzir, de convencer, de manipular filho contra pai, irmão contra irmão, homem contra mulher. Para com os demónios há que ser intolerante, surdo e cego! O que é mau não se escuta, despreza-se. Assim fala a prudência desde há séculos.
O que vejo nas opiniões contra Trump, infundadas, provenientes de gente que não acompanha nem discursos nem debates, é o reflexo irónico das certezas inquestionáveis do nosso povo. Na minha ingenuidade participei numa acalorada conversa sobre as eleições do nosso país vizinho à esquerda e encheu-me de nova esperança no português; que afinal ainda o era no seu coração, não totalmente endurecido pelas importadas formatações educacionais. Percebi que o português não perdera, antes ainda desenvolvia a mais jovial criatividade e imaginação sobre criaturas estranhas e viciosas, que vivem para além do oceano, em terras inóspitas, desconhecidas.
Ouvem-se histórias alarmantes, que Trump disse barbaridades incompreensíveis, que odeia as mulheres e os pobres, que quer escravizar o México e fazê-lo pagar por isso, que vai explodir o mundo com mísseis atómicos, que o seu cabelo é falso e que por dentro é um capitalista assassino… Preenchem a cores vivas a vil personagem desenhada pelos populares “media”. Este sonho, esta imaginação tão presente nos nossos compatriotas, é algo que podemos constatar desde os tempos mais remotos, é património nacional desde os lusitanos aos descobrimentos à poesia à religiosidade ao socialismo: as coisas só movem o português se não forem conhecidas, quando estão sob a sombra do abismo. Combatemos melhor quando não sabemos bem contra quem combatemos, avançamos com ânimo contra algo que não percebemos ao certo, algo que não conseguimos antecipar, sem garantias de sucesso nem de possibilidade de retorno; partimos ao mar porque foi o horizonte que nos seduziu, não a maçadora diplomacia esquemática dos europeus.
Tem de haver sempre espaço para a esperança, para o desejo voar; tem de existir o desconhecido para o português, a insolência perante o incalculável, o relaxamento quando surge o inesperado, o característico “desenrascar” na véspera: algo que se pode mesmo chamar “coragem portuguesa”. E vejo que, por mais que se ensine a ciência e a economia, com métodos europeus que lentamente engolem a nossa tradição tão própria, é com bons olhos que testemunho o inacreditável: ao teimoso português, onde se tapa um desconhecido logo ele descobre outro onde se possa refugiar, onde possa criar mundos maravilhosos e monstros fantásticos.
Tudo isto pode tomar-se por ignorância, por falta de educação, apenas se nos limitarmos a uma análise superficial. Os povos de fraco individualismo, com homens pouco ousados refugiam-se em fórmulas científicas e especialíssimos conhecimentos para afirmar a potência da sua autoridade. Os povos não sonhadores sabem perfeitamente como se governar, agem em massa porque lhes falta o singular; procuram com muitos o que cada cidadão não alcança: um lugar próprio no céu. Que sucede quando um país como o nosso assimila o método europeu? Exatamente o contrário dos outros países bem-comportados: perdemos a força! Quando abandonamos a nossa especificidade individual e passamos a pertencer ao aglomerado, a experiência e disciplina dos restantes humilha a nossa forma de viver; sentimo-nos envergonhados pela nossa rudeza e provincianismo. É tempo de mudança. Novamente os sonhos retomam os seus cursos, o português crê-se protagonista de uma nova epopeia; que venha a modernidade!
Nunca soubemos respeitar as causas da nossa riqueza, do nosso sucesso. Sempre fomos cruéis com os nossos heróis porque estes se encontravam longe; a riqueza chegava a Portugal dos confins da terra, vivíamos o sonho, tantas vezes inconscientes do esforço sublime dos nossos compatriotas. Crueldade e ingratidão, o sonho de hoje esmaga o de ontem sem escrúpulos, e com ele todos os campeões de outrora; o império é abandonado em favor da Europa sem qualquer contrição, o presente despreza o passado, eleva-se acima dos nossos antepassados como se tivessem sido bárbaros, ignorantes, estúpidos, maldosos… Mas ai de quem diga que estamos felizes nesta Europa que nos cobra fatura. Ousarei dizer que o português despreza tanto o “imperial” quanto o “austero”?
O que é Donald Trump para os portugueses? É o questionador do nosso sonho internacional. Sonhamos com a liberdade, o liberalismo e os direitos sociais e económicos. Nisso acreditamos, é a nossa era, que elevamos a uma espiritualidade radical, impiedosa para com qualquer um que se possa identificar como seu potencial adversário. O Trump é o mau que nos faz sentir bons. O Trump é uma figura que aparenta pôr em risco a realização do nosso ideal, porque o nosso ideal não se limita a nós! Sonhamos maior, o sonho tem de ser maior que nós, tem de ser um desejo universal, uma esperança eterna, que como “bons” caminhamos como irmãos para a “felicidade”. Um mundo pro-choice, sem fronteiras, sem armas, sem capitalistas, sem minorias nem discriminações, …. Trump é a pedra no sapato do iludido! Como reagem então? Aumentando a intensidade emocional, na esperança de asfixiar, junto aos outros, a dúvida semeada pelo arrogante provocador. Mas à erva daninha não basta pisar, é preciso arrancá-la!
A imagem de Donald Trump pode dissecar-se de forma breve para compreendermos que cada aspecto do seu ser é uma agulha num nervo da pretensão portuguesa: é homem, branco, rico, rude, ignorante, não se preocupa com o que diz… Acima de tudo, é um homem livre de fazer o que quiser. Livre de não acreditar na opinião massificada, livre de expor o que ele acredita pessoalmente; não respeita nem rito nem reverência! Donald Trump é tudo menos moda; de facto, nada na sua personagem pode tornar-se símbolo do atraente movimento liberal: não é mulher, não é preto, não é socialista, não é politicamente correcto, não tem pena das minorias, não é sofisticado… Nem sequer é novo nem muito menos “sexy”! Trump é um homem que lhe apeteceu concorrer a presidente, é um homem que não precisou dos outros para desejar o máximo; a sua força proveio apenas dele (incluindo a sua riqueza!), não lhe foram oferecidas garantias e grande parte do dinheiro gasto foi do seu bolso; é um homem que arrisca, que acredita em si.
Talvez eu seja ainda romântico, um pouco antiquado, por isso mantenho firme o ideal de respeito mútuo entre inimigos mesmo se mortais. O duelo tem de ser honroso. Mas para além dos tristemente ultrapassados ideais de cavalaria, há uma componente muito mais prática que justifica o respeito. Sem respeito não há procura de compreensão e logo não há possibilidade de se poder antecipar a jogada adversária. Respeito é algo de enigmático para as gerações hipersensíveis de hoje; todas as convicções fundem-se aos nervos, assemelhando-se às famosas pulsões freudianas. Acredito que a separação dos “negócios” e o “pessoal” serviu principalmente para preservar a qualidade dos negócios e não tanto o bem-estar pessoal. É que quando há reações impulsivas, nervosas, a razoabilidade é a primeira a morrer. Quando ouvi dizer que Trump era um “homem horrível” percebi que o que estes indignados queriam, no fundo, era sentirem-se indignados, acima de tudo “sentir”. Isto até dá a impressão de que o candidato republicano nada tem de palpável que se possa criticar, o que é absolutamente falso! O politicamente correcto e a luta por certos “direitos humanos” contemporâneos é desgastante para os militantes que tentam a toda a força dignificar a sua cruzada cobrindo-a de relevância e proactivismo, quando lhes é claro que a causa pela qual lutam não atrai; não é uma causa grandiosa que move homens e mulheres à ação. Estes indignados vão ganhando terreno por serem quase parasíticos, insistindo, protestando, falando alto, manifestando, é um negócio de “show”, e como quem bem sabe, “the show must go on”. Exigem coisas à medida que estas vão surgindo; não têm plano definido, os seus “objectivos” não são nada objectivos, cada grupo insiste numa coisa diferente e no fim todos concordam que todos merecem… mais! Falta-lhes substância, algo que os defina como indivíduos, uma identidade.
A identidade portuguesa é algo de muito complicado nos tempos que correm. O que é, de facto, ser português? A resposta depende, e na maior parte determina, a posição política do indivíduo. Se trouxermos a história como referência de quem somos, imediatamente saímos classificados como de direita, se falamos em emancipações e ideais sociais somos de esquerda, se procurarmos mais união com a Europa voltamos para a direita, se falarmos da saída do euro associamo-nos com a esquerda, se dizemos que vamos cumprir as dívidas que devemos somos desprezados como direita, se prometemos “baixar os impostos e cortar na dívida” exaltam-nos como esquerda… Nunca entendi o nacionalismo socialista/comunista em Portugal, qual é a tradição que o sustenta? Se rejeitam a nossa história na sua enorme maioria imperial, quem vão procurar como referências de um “português”, Afonso Henriques e Viriato? Sempre quando falo de história sinto o rosnar da esquerda pronta ao ataque.
A história de um país é a ferramenta mais antiga de embutir identidade no seu povo; hoje qualquer noção de identidade é rejeitada, mas o “ser português” paradoxalmente ainda circula como um forte ideal. Sim, a identidade individual é talvez a peça mais desmantelada neste nosso século ainda jovem: a identidade está fundamentada por séculos de tradição, só assim subsiste; a identidade é um conjunto de deveres orientadores, de referências comportamentais, é o direito base de cada cidadão de uma nação e o seu referente ponto de partida. E quando se renuncia de modo brutal à história, à religião, à educação, ao comportamento masculino e feminino e suas respectivas decências, não se está de modo nenhum a dar direitos, mas a matar a definição daquilo que é “ser português”. Porque razão se vê hoje tanta “liberdade” entre os jovens? Porque estes não fazem ideia quem sejam, nem podem sequer garantir a sua atração pelo sexo oposto, não há solo firme em nada, nem nos traços fisiológicos que lhes pertencem desde nascença, em vez de crescerem preocupando-se com assuntos da vida, virtudes, cultura, sensibilidade, exigência, não!, estão constantemente a saltitar de opiniões, nem sequer por eles formadas, apenas alimentadas pela mentalidade dominante. Perdem anos a fio neste exaustivo buffet de degustação e só estabilizam quando sentem, acerca de uma qualquer opinião, um agudo interesse pessoal. Como por sua vez têm um vazio em si, como não sabem nada de si porque em nada são capazes de afirmar o seu “eu”, agarram-se a essa opinião, politicamente aceitável, com uma força que, vista de longe, aparenta genuína convicção. Mas é superficial e passageira! Tão passageira que desconfio que quando tiverem oportunidade de ler este artigo, pouco ou nada restará das furiosas emoções suscitadas pelo já então esquecido candidato presidencial às eleições de 2016.
Estudante universitário
P.S. Preservei o artigo original, escrito antes da noite eleitoral. De acordo com os resultados das eleições, parece que terão de se resignar à obviamente diferente opinião que os americanos têm de Donald Trump, o quadragésimo quinto presidente dos EUA.
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