segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Últimas Conversas. Testamento de Bento XVI. 1

ANSELMO BORGES  DN  19.11.16

Falei com ele uma vez, era ainda o cardeal Josef Ratzinger. A impressão que me ficou foi a de alguém muito afável, tímido e com um objectivo fundamental: conciliar a fé e a razão. Ao ler agora Letzte Gespräche (Últimas Conversas), e são mesmo as últimas, pois não pensa publicar mais nada e quer destruir notas dispersas, confirmei essa primeira impressão. Estas conversas do Papa emérito com Peter Seewald constituem uma espécie de balanço de uma vida e de um pontificado, sendo esta a primeira vez que um papa o faz. Impressiona a sua dignidade na humildade, reconhecendo os seus limites e fragilidades, procurando ser fiel à verdade, inevitavelmente na perspectiva dele, e sabendo que a última palavra pertence a Deus, de quem espera um juízo misericordioso e para o qual se prepara com serena confiança. Diz: "Crer não é senão, na noite do mundo, tocar a mão de Deus e assim - no silêncio - ouvir a Palavra, ver o Amor." Qual é "o verdadeiro problema deste nosso momento da história? Deus desaparece do horizonte dos homens e, com a extinção da luz que vem de Deus", a humanidade é apanhada pela falta de orientação, "cujos efeitos se manifestam cada vez mais".

Nasceu de uma família modesta, profundamente enraizada na fé da Igreja Católica. O pai era polícia, mas crítico e capaz de pensar pela sua própria cabeça, a mãe era muito cordial. Teve uma infância feliz, com muito afecto. "Para nós era claro que uma pessoa religiosa devia ser antinazi." Foi um miúdo vivaço e algo irrequieto e até "rebelde". O nazismo e a guerra complicaram tudo. Com o tempo, tornou-se "mais reflexivo e menos alegre". Manifestou desde sempre interesse pelas questões religiosas.

Aos 17 anos foi chamado para o serviço militar do Reich. Foi desertor e prisioneiro dos americanos. Essa experiência tê-lo-á marcado definitivamente. De facto, quando já Papa, visitou Auschwitz e fez um discurso deveras dramático e emocionante. "Tomar a palavra neste lugar de horror, de crimes contra Deus e contra o ser humano sem precedentes na história, é quase impossível, e é particularmente difícil e deprimente para um cristão, para um Papa que procede da Alemanha. Num lugar como este faltam as palavras; no fundo, só há espaço para um atónito silêncio, um silêncio que é um grito interior para Deus: porque te calaste? Porque quiseste tolerar tudo isto? Onde estava Deus nesses dias? Porque é que se calou? Não podemos perscrutar o segredo e o mistério de Deus, só fragmentos, e enganamo-nos quando queremos converter-nos em juízes de Deus e da história. O nosso grito dirigido a Deus tem de ser ao mesmo tempo um grito que penetra no nosso próprio coração para que desperte em nós a presença oculta de Deus, para que o poder que depositou nos nossos corações não fique coberto ou sufocado em nós pelo egoísmo, pelo medo dos homens, pela indiferença e pelo oportunismo." É necessário elevar esse grito até Deus particularmente no momento actual, "no qual parecem surgir novamente nos corações dos homens todas as forças obscuras: por um lado, o abuso do nome de Deus para justificar uma violência cega contra pessoas inocentes e, por outro, o cinismo que não reconhece Deus e que ridiculariza a fé nele. Gritamos a Deus para que leve os homens a arrepender-se e a reconhecer que a violência não cria paz, mas suscita mais violência, um círculo de destruição no qual, no final de contas, todos perdem".

Foi sempre excelente nos estudos e fez uma carreira académica brilhante, sendo reconhecido como um dos mais lúcidos intelectuais contemporâneos. Agostiniano na sua orientação teológica - Deus é "o Deus da fé, que toca o coração do homem, que me conhece e me ama, mas, de algum modo, Deus deve ser também acessível à razão" -, conservador, também quis, concretamente a seguir à guerra, renovar a Igreja: "Éramos progressistas. Queríamos renovar a teologia e com ela a Igreja, tornando-a mais viva. Queríamos que a Igreja progredisse e estávamos convencidos de que deste modo seria rejuvenescida." Não ousaria alguma vez apresentar-se como "reverendo". Nós, sacerdotes, "não somos patrões, mas servos". Em 1958, era capelão, escreveu um texto intitulado: "Os novos pagãos e a Igreja", em relação ao qual se chegou a dizer que "continha afirmações heréticas". Ajudou financeiramente estudantes. Foi "fã" de João XXIII. "Tínhamos uma certa reserva interior face à teologia de Roma." Participou com entusiasmo na renovação da Igreja com o Concílio Vaticano II, assessorando concretamente o cardeal Josef Frings, de Colónia, e dando contributos decisivos para o documento sobre a Revelação. Partidário de mais "colegialidade" no governo da Igreja, assinou um texto de Karl Rahner - é certo que "mais por amizade" -, para debater e até abolir a lei do celibato. Pôs reservas à encíclica Humanae Vitae: "O que dizia era válido na substância", mas "eu procurava uma aproximação antropológica mais ampla".

Como se deu a viragem? Temeu a fragmentação da Igreja, pois havia interpretações indevidas do Concílio, a liturgia parecia à deriva, as pessoas já não tinham uma orientação clara para a fé, estava a impor-se "a ditadura do relativismo". O Concílio terminou em 1965 e já em 1967, numa aula em Tubinga, chamou a atenção para que a fé cristã estava agora, "como nunca antes na história", circundada "pela névoa da incerteza". Por isso, eu penso que a zona mais negra ou, pelo menos, mais problemática da sua vida, que foi a da condenação de tantos teólogos durante o tempo da sua presidência da Congregação para a Doutrina da Fé, tem neste temor a sua explicação: "Vi que a teologia já não era a interpretação da fé da Igreja Católica." Exemplo típico de desvio teológico, segundo Ratzinger: Hans Küng, de quem foi amigo e colega e com quem não é meigo na crítica, embora "nunca tenha aconselhado tomar medidas contra ele".


Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico
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