quinta-feira, 17 de novembro de 2016

Simples como és, és instrumento de Deus para acordar a simplicidade dos nossos corações

Querida Constança:

Na passagem de ano 2000/2001, o Senhor, na sua Infinita bondade, concedeu-me a graça de contemplar um milagre, que conduziu através de ti. Passo a contar-te o que se passou. 
Os teus pais, a tia Mariana e eu fomos a Fátima para a passagem do milénio, século e ano. Os teus pais nunca tinham ido a uma tal cerimónia e estavam receosos que o mau tempo que se previa (os meteorologistas anunciaram uma tempestade para essa noite) fosse prejudicial para a tua saúde. Mas o mau tempo tardava em chegar e às 22:00 encontro-nos todos na Basílica de Fátima, onde participámos juntos na Santa Missa e no Te Deum de agradecimento ao Senhor pelas muitas graças concedidas. Da basílica seguimos para a Capelinha das Aparições, onde com mais uns outros mil peregrinos, rezámos o terço. Tivemos a sorte de arranjar lugares sentados e ao nosso lado ficou um casal com dois filhos (ele de pé). Ele dos seus 50 anos, bem vestido, rezava fervorosamente o terço em madeira escura. Ela, bonita, com os seus 35 anos, igualmente bem vestida, rezava. Os dois filhos, dois bonitos rapazes dos seus 7 e 9 anos, brincavam com as velas acesas, debaixo do olhar vigilante, mas ternurento do pai. 
Tu, a partir do 2º mistério achaste que já chegada de estar sentada na tua cadeira e começaste a esticar-te toda e a "rezar" em voz alta. O teu pai, após várias tentativas para que tu estivesses sossegada, entendeu que o que tu querias era vir para o seu colo. E assim foi. Ficaste deitada ao comprido em cima dos joelhos do teu pai e dos meus. Nós nem sonhávamos quais eram os desígnios de Deus naquele instante.
Quando chegámos ao fim do 3º mistério deram as badaladas da meia noite. O Senhor Bispo de Leiria, que presidia às cerimónias, interrompeu o terço e convidou todos a darem um abraço da paz aos vizinhos, mas em que cada um levasse consigo em espírito, todos os homens do mundo,  qualquer que fosse o seu credo ou raça, num verdadeiro abraço universal.
Eu abracei o teu pai, a tua mãe, a tia Mariana e, quando me virei para abraçar o meu vizinho (o tal casal que te descrevi) que estava no lado direito, vi que ele se aproximava de ti. Colocou um joelho em terra e beijou-te reverentemente na cara. Depois levantou-se e colocou a sua mão direita na cara do teu pai. Eu presenciava este acontecimento com estupor. Os olhos deste senhor brilhavam de alegria, na certeza que tu, naquele momento, eras a presença viva de Jesus e que, ele tinha sido escolhido para O reconhecer em ti e louvá-lO, beijando-te. Ele tinha que tocar em Jesus ali visivelmente presente em ti. Tinha que te louvar. 
Foi tudo muito rápido, mas de uma rara beleza e intensidade. Foi a resposta dum primeiro impulso do seu coração, sempre os mais verdadeiros, uma vez que a cultura dominante ainda não tinha tido tempo de abafar a pureza que desses impulsos sempre brota, quando verdadeiramente correspondem àquilo para que o coração foi feito sentir. 
Jesus, na simplicidade que caracteriza os seus gestos, escolheu-te a ti, a mais simples e pura de coração de todos os que ali estávamos, para seres o Seu instrumento, a ti que com a tua irmã Leonor, são já parte do coro dos anjos que anunciam todos os anos aos simples de coração, aos que esperam a chegada do Senhor, que Jesus nasceu em Belém. 
A mim deu-me a graça de ser testemunha deste acontecimento e de poder retornar à memória da simplicidade do gesto, sempre que eu complicar as coisas da vida. O teu pai, tal como Nossa Senhora o fez no seu tempo, guardará este acontecimento no seu coração, como estou seguro terá guardado tantos outros que aconteceram contigo, porque tu, simples como és, és instrumento de Deus para acordar a simplicidade dos nossos corações. 
Agradeço a Deus pela tua presença. Que Deus te abençoe. 

Um beijo grande
Tio Diogo

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