Minto, sim

A honestidade, não sei porquê, é apreciada. As pessoas detestam ouvir mentiras. Mesmo quando elas são agradáveis, preferem saber a verdade. Por muito horrível e assustadora que a verdade seja, ela é também um bálsamo que sossega a desconfiança. Por exemplo, a desconfiança de a verdade ser mais terrível ainda. Ou, simplesmente, a desconfiança de que a outra pessoa está a mentir.

Há só uma área em que é impossível reduzir o número de mentiras. Como todas as pessoas destituídas de sentido de orientação, provoco em quem se orgulha de tê-lo longas explicações acerca de trajectos. São sequências. Começam pelo trajecto para bons navegadores que conhecem bem o terreno. Quando este falha, passam para um trajecto mais longo e mais para a compreensão das criancinhas. Finalmente, entram numa explicação passo-a-passo, em que usam marcadores que consideram infalíveis: “Está a ver aquela igreja com uma cruz de 50 metros de altura?”

A nossa ignorância provoca-os. Torna-se um teste divertido do jeito deles para ensinar percursos a burros. Não desistem. E, por isso, obrigam-me a mentir. Não, não sei onde são os Cabos Ávila. Mas digo que sei. Idem para o chinês e para a Repsol. É tudo mentira. É tudo para que se calem, satisfeitíssimos.

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