quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Portugal do poder ser


PAULO TUNHAS   OBSERVADOR   24.11.16
Todos os portugueses, com a excepção de Marques Mendes, o único que sabe, estão condenados ao “parece que”. Parece que Costa e Centeno negociaram excepcções para a CGD. Parece que Rio não se candidata
É impressão minha ou andamos todos a viver num regime colectivo de “poder ser”? António Costa e o ministro das Finanças garantiram as condições excepcionais de que se fala aos novos administradores da Caixa? Pode ser que sim – mas também pode ser que não. Há uns dias atrás, dizia-se que Paulo Macedo podia fazer parte do “plano B” do Governo para essa mesma Caixa – mas também podia ser que fosse para o Banco de Portugal – ou, claro, podia ser que não. Pode ser que José Sócrates tenha escrito O carisma – embora se sustente que às tantas não, pode ser que tenha sido outra pessoa. E pode ser que Rui Rio, que, é triste dizê-lo, se especializou nesta matéria, se candidate ao lugar de Passos Coelho no PSD – embora obviamente possa ser que não. E por aí adiante.
Este regime extraordinariamente aberto de possibilidades em que cada dia que passa mais vivemos pode, é verdade, dar uma certa ideia de liberdade. Ao fim e ao cabo, em regime de poder ser tudo, ou quase tudo, é, pelo menos imaginariamente, possível. Não é uma felicidade? Portugal tornou-se, para sorte de alguns, uma espécie de experiência colectiva dos célebres “cenários políticos” de Marcelo Rebelo de Sousa, numa sua anterior encarnação. E tirando, parece, a gente que investe dinheiro, que sofre do horrível vício maniqueísta do “ou é ou não é”, viver num mundo de plena virtualidade tem um indiscutível encanto. Quem me garante que amanhã não vou encontrar um pote de ouro, deixado por um duende benfazejo, no fim do arco-íris? Até pode ser que sim.
Há, no entanto, alguns inconvenientes. Um deles é que todos os portugueses, com a excepção de Marques Mendes, o único que sabe, estão, sob a poderosa influência do poder ser, condenados ao “parece que”. Parece que António Costa e Mário Centeno negociaram com a equipa da CGD as tais condições excepcionais. Parece que Rui Rio não se vai candidatar. Parece que Sócrates escreveu mesmo o livro. E, de repente, uma ou outra destas coisas parece que não. Estas oscilações, que nos impedem de fixar as nossas crenças, irritam, como uma espécie de comichão. Um “parece que” aqui e ali não incomoda muito. Agora um “parece que” generalizado, sim.
Viver desta maneira custa. Porque, pouco a pouco, nos faz perder o contacto com a realidade. Se tudo é susceptível de acontecer, tudo é incerto, de uma incerteza que torna aventurosos os mínimos planos. O que tem que ser tem muita força, mas o que pode ser tem também alguma, particularmente a força de ameaçar com o poder ser que não. No fim do arco-íris pode estar, em vez do pote de ouro, um saco de lixo e as minhas expectativas de riqueza serem defraudadas. O regime do poder ser cria insatisfações próprias.
Será que é assim que gostamos de viver? Se gostamos, não devíamos gostar. Porque tanto poder ser resulta, sem paradoxo nenhum, num grande impoder. Até porque faz desaparecer todo e qualquer sentimento de dever ser, que só faz sentido num mundo de possibilidades limitadas e reflectidas. Tudo poder ser faz com que nada deva ser. O que, para a nossa orientação prática, é uma desgraça, e das grandes.
Quem parece não se importar grande coisa com isto é Marcelo, que elevou o estatuto do poder ser a alturas prodigiosas. Não há nada que os afectos não tenham a possibilidade de resolver. Amor, insucessos, infidelidades conjugais, retorno do ser amado, depressão, negócios, justiça, impotência sexual, maus-olhados, invejas, doenças físicas e espirituais, insónias, filhos problemáticos, azar no jogo, vícios de drogas, tabaco, exames, cartas de condução, alcoolismo. Quem precisa do Professor Buba quando tem o Professor Marcelo? Os afectos são o poder ser na sua essência mais sensível.
Até ele, no entanto, se vê de vez em quando confrontado com os limites do poder ser, como aconteceu aquando do seu encontro com a Rainha de Inglaterra. A acreditar num maravilhoso artigo de Miguel Esteves Cardoso, que me fez rir como há muito não me ria (“Pobre Rainha”, Público, 18 de Novembro), Marcelo, num episódio trágico, só pôde ser o que não devia ser. Não foi só ridículo, um azar que é por vezes condenado em excesso. Foi pior, bastante pior.
Esta desventura presidencial, vendo bem as coisas, até nos podia ajudar a reflectir sobre os inconvenientes de viver em regime de poder ser e levar-nos a buscar um terreno mais seguro e menos imprevisível para a nossa vida. O Portugal do poder ser até pode ter algumas vantagens, mas não convém exagerar. Tanta virtualidade cansa. E, segundo alguns dizem, arrisca-se a levar-nos para o abismo.
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