Portugueses e Árabes

António Barreto
DN 2016.06.05
É impossível encontrar, a propósito de quem quer que seja, um sentimento comum a todos os Portugueses. Ainda bem. O mesmo, aliás, se pode dizer dos outros povos: o consenso é coisa rara, utópica mesmo. Mesmo quando está em causa a opinião sobre outros países, não há consenso. São muitas vezes impressões e preconceitos, aumentados quando se envolvem questões de religião, de identidade e de história. O nacionalismo é uma realidade complexa e delicada. É sabido que os Franceses não gostam dos Alemães nem dos Americanos. Que os Portugueses não morrem de amores pelos Espanhóis. Que os Polacos abominam os Russos. Que os Croatas detestam os Sérvios. E que os Escoceses não têm inclinação pelos Ingleses. Daí a ter certezas sobre os sentimentos colectivos vai um longo e delicado caminho. O anedotário não define um carácter nem uma cultura. Mas lá que existe...
Se começarmos a procurar com um pouco mais de pormenor, é possível, todavia, encontrar tendências e percepções dominantes. Entre esquerdas e direitas, por exemplo, não é difícil encontrar inclinações frequentes. Assim, relativamente aos Árabes e aos Muçulmanos, duas entidades de que muito se fala recentemente, parecem claras certas atracções de estimação.
Salvo excepções, a direita detesta os Árabes, menos os ricos. Dá-se mal com eles, a não ser que tenham dinheiro. Está disposta a tudo para negociar com eles.
Não lhes conhece a história. Não distingue entre Árabes, Turcos e Persas. Nem entre Muçulmanos e Semitas. Não gosta, mas aprecia aqueles que, nos seus países, mantêm a produção petrolífera e alimentam bolsas e bancos internacionais. Agrada-lhe o princípio dinástico que, monárquico ou republicano, tanto tem influenciado o poder nalguns países árabes.
Não lhes perdoa o passado, nem o que fizeram, nem o que não fizeram. Deixa-lhes fazer o que querem no futuro, desde que paguem bem. Aprecia os déspotas e ditadores, porque se espera deles que tragam estabilidade.
Não se importa muito com o modo como os Árabes em particular e os Muçulmanos em geral tratam as mulheres.
Olha com distância e por vezes indiferença para os conflitos violentos entre Judeus e Árabes: a eliminação recíproca agradaria a muita gente da direita.
A direita não gosta de Árabes nem de Judeus.
Salvo excepções, a esquerda gosta dos Árabes. E dos Muçulmanos. Tem medo, mas gosta deles. Não lhes conhece a história. Não distingue entre Árabes, Turcos e Persas. Nem entre Muçulmanos e Semitas.
Perdoa-lhes tudo, incluindo a violência e o despotismo, por alegadamente terem sido, no passado, vítimas da escravatura e do colonialismo. Deixa-lhes fazer o que quiserem, porque lhes reconhece o direito à desforra, dado que foram humilhados. Para a esquerda, actos de terrorismo e outros desmandos, praticados por muçulmanos, têm sempre uma circunstância atenuante no imperialismo e na pobreza.
Em todo o universo muçulmano e em especial no mundo árabe, guerras, terrorismo, tortura, pobreza, desigualdade, ditadura e intolerância têm uma causa principal: o Ocidente, os europeus, os americanos e a politica europeia dos séculos XVIII, XIX e XX.
A esquerda não gosta da maneira como os Árabes em particular e os Muçulmanos em geral tratam as suas mulheres, mas entende que são particularismos culturais que merecem respeito.
Olha com indignação para os conflitos violentos entre Judeus e Árabes: culpa Israel, mas os principais responsáveis são os americanos e os europeus.
A esquerda não gosta de Judeus, mas gosta de Árabes.
A direita gosta de Lawrence, mas prefere vê-lo a manobrar por longe. A esquerda não gosta de Lawrence, mas gosta de o ver a intrigar. A esquerda gosta do deserto. A direita gosta de tâmaras.
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