Os culpados

António Barreto
DN 20160619

Em quinze anos, desde 2000, o crescimento económico português foi, para o período ou em média anual, zero! Nunca tal se viu, na evolução económica recente. Diante da brutalidade destes números, com a esquerda ou com a direita, as esperanças no desenvolvimento económico e social esfumaram-se. O que se esperava que a modernização tivesse trazido, o que se pensava que a integração europeia tivesse produzido, o que se imaginava que a nova economia e os novos empresários tivessem criado, tudo isso parece ter desaparecido! Aspira-se a um crescimento de 0,5 a 1%, como se fosse o El Dorado! Sonha-se com desemprego a 7% como se do paraíso se tratasse! Com o actual endividamento e o respectivo serviço, décadas serão necessárias para libertar recursos indispensáveis para o investimento. Até lá, vamos procurando culpados.
É normal. Compreende-se. Cada crise tem o seu culpado. Nunca é unânime, há sempre polémica, mas, em cada momento, um culpado sobrepõe-se aos outros. Houve um tempo em que era o fascismo. Pela pobreza, pelo analfabetismo, pela doença e pelo atraso, a culpa era do fascismo, da "ditadura terrorista dos monopólios", segundo a preciosa definição do Dr. A. Cunhal. Também se dizia que os culpados eram cem famílias.
Quando a liberdade parecia despontar, logo surgiram os que a queriam atacar e ficaram responsáveis por todos os desmandos: eram os comunistas, a extrema-esquerda e os militares do MFA. Com a União Soviética à frente. Foram eles os responsáveis pelos desastres da economia, pelo desemprego e pela inflação.
Encerrado esse ciclo, o culpado passou a ser o Estado. A burocracia. Os funcionários. As empresas públicas. E, através do Estado, a maçonaria. Era no Estado que floresciam a corrupção e a promiscuidade. O sector público nada fazia, nada produzia, só gastava.
Esgotada a ladainha do sector público, chegou a vez das elites. Elites económicas e políticas (nunca as artísticas nem as intelectuais, pois claro...) incapazes de dirigir e enriquecer o país. O povo trabalhava, os trabalhadores cumpriam, mas as elites gastavam ou não se interessavam. E não estavam à altura dos desafios e das necessidades.
Não faltou muito para que se encontrasse um novo grande culpado: o país inteiro, o povo, a população que viveu acima dos meios, muito acima das suas possibilidades. Viver a crédito, com dívidas, como se não houvesse filhos nem dia seguinte, foi a razão pela qual o país se afundou. Todos os Portugueses, com excepção de alguns iluminados, tiveram a sua quota-parte de culpa.
O contra-culpado não tardou: a direita! A direita dos ricos e dos banqueiros. A direita dos patrões. A direita do Partido Socialista, por um tempo. A direita do PSD e do CDS, claro. Com a direita vieram, evidentemente, a União Europeia e os alemães, culpados indesmentíveis da nossa pobreza!
Agora, de repente, temos um novo culpado. Disse o ministro das Finanças, Mário Centeno, que a economia não cresce por causa do sistema bancário! Segundo os jornais, ele entende que os trabalhadores portugueses são os que mais trabalham em toda a Europa, como são igualmente, de longe, os que menos ganham. Eis que constitui, diz o ministro, uma força a aproveitar para fomentar o investimento. Para dinamizar esta economia, feita pelos que mais trabalham e menos ganham, é necessária uma banca que funcione. É o que ele promete! Não tínhamos pensado nisso antes. Não nos lembrávamos dos mais de 30 mil milhões de crédito malparado, nem dos trapaceiros que destruiriam o que sobrava de reputação da banca portuguesa.
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