sexta-feira, 10 de junho de 2016

A mentalidade socialista e a honra dos nossos filhos

Miguel Angel Belloso
DN 20160610

Às vezes o meu país provoca alguma aversão. Não o seu povo, que tem o instinto natural de prosperar, mas antes os políticos que aspiram a liderá-lo e que o tomam como inútil e incapaz de seguir em frente graças ao seu esforço e tenacidade. Na semana passada o diário El Mundo, que é o segundo jornal em audiência de Espanha e que faz parte da empresa em que trabalho, convocou-nos para um encontro público com Pedro Sánchez, o líder do PSOE, com base nas próximas eleições de 26 de junho. E ali tivemos oportunidade de conhecer as suas propostas e de comprovar, mais uma vez, a mentalidade socialista, o gene que o partido tem inscrito desde a sua fundação. Este senhor teve agora a ideia de incluir no seu programa eleitoral a criação de mais de 200 000 postos de trabalho no setor público, que equivalem ao número de pessoas que na sua opinião estão desprotegidas, que não podem progredir por si mesmas porque não têm formação, nem são capazes de gerar valor acrescentado. Mas que nesta altura da vida um partido que aspira a ocupar a centralidade e o apoio da maioria do país se vire para o pessimismo antropológico promovendo um plano maciço de emprego assistido é algo de completamente anacrónico.
Diz Jordi Sevilla, o ministro da Economia do governo de Pedro Sánchez no caso de este ganhar as eleições, que tal programa não será como o infausto plano E (de obras públicas) de Zapatero, esse que nos levou a um défice de 11% do PIB quando já se havia desencadeado a crise financeira, na base, ao melhor estilo dos seguidores de Keynes, de cavar valas para voltar a tapá-las. A mim não me convencerá jamais. Não só é nocivo, porque é reincidente, promover uma maior dependência do Estado quando o correto seria reduzi-la; não só é perverso continuar a falar de políticas sociais quando o que conviria discutir é a competitividade e a produtividade; não só é inapropriado fomentar mais impostos quando as empresas necessitam é de um quadro fiscal que lhes permita ter mais lucros para investir e gerar emprego. O mais grave é a mensagem que se envia à sociedade. A que os socialistas dirigem aos nossos jovens.
Agora que as sondagens parecem refletir uma certa mudança de tendência e que, quando se lhes pergunta, a maioria dos nossos filhos que aspirava de preferência a trabalhar na função pública, ou numa instituição financeira segura, vai diminuindo a favor dos que declaram que gostariam de empreender algo por sua conta, de ser empresários, fazer-se à vida, desembaraçar-se da tutela do Estado, chega o Partido Socialista, o da mudança, o dos novos tempos, o do futuro, e diz-lhes o seguinte: não vos preocupeis, não vos esforceis, não deis mais voltas, que eu vos assegurarei um emprego público para a vida.
Esta iniciativa é infeliz, mas nada surpreendente. A proposta tem uma lógica implacável: primeiro, castigo as empresas com mais impostos - o que é também a intenção do Partido Socialista -, a seguir, este incremento de cobrança permite-me aumentar as ajudas e as subvenções que me proporcionam votos, e, depois, como corolário, lembrei-me disto: contratar os desempregados diretamente. Aumentar o colesterol mau, a gordura do Estado. E se as coisas não funcionarem, como é previsível, logo virá a direita solucionar o disparate.
No colóquio com Pedro Sánchez, o líder dos socialistas esmiuçou algumas das ideias que dominam alguns dos partidos homólogos, por exemplo em Portugal. Uma delas, verdadeiramente obsessiva, é a de reconstruir um Estado social que a direita, aparentemente, se encarregou de destruir durante os últimos anos. A segunda é o combate feroz contra a desigualdade, que na sua opinião é o dia-a-dia dos cidadãos espanhóis, e quem sabe também dos portugueses, segundo António Costa, o Bloco de Esquerda ou o Partido Comunista. Mas, pelo menos no meu país, os dados objetivos demonstram que a desigualdade aumentou com a crise muito mais ligeiramente do que dizem os demagogos da esquerda, e que a principal razão para que o tenha feito foi o aumento brutal do desemprego, não outra causa espúria ou perversa como o progresso dos ricos graças a leis injustas ou abusos criminais.
No que respeita ao Estado social, a direita do meu país, que não é liberal, que padece do complexo de culpa face à social-democracia, teve muito cuidado em mantê-lo. A realidade é que mal houve cortes, apenas a racionalização exigida pelo desvio das contas públicas em alguns setores como a saúde ou a educação. Mas nada a ver com a espoliação de direitos de que fala irresponsavelmente a esquerda a fim de estimular os instintos mais primários das pessoas, de instigar a inveja e o ressentimento e, entretanto, conseguir votos.
Segundo o Sr. Sánchez, criámos um sistema que decidiu blindar a proteção dos idosos, mas que deixou os jovens desamparados. E eu não pude estar mais de acordo com o líder do PSOE. A direita aumentou a capacidade aquisitiva dos reformados inclusive em tempo de crise, o que é uma prioridade discutível. Mas preocupou-se com os jovens sempre mais do que a esquerda. A reforma laboral aprovada pelo governo de Rajoy, que dotou as empresas de mais flexibilidade, conseguiu que os jovens tenham mais oportunidades de obter ou, se for esse o caso, de conservar o seu posto de trabalho. E a reforma da educação, a primeira feita por um governo de direita desde que Franco morreu, vai na direção de romper com o igualitarismo socialista que tem vindo a presidir ao modelo e a procurar a excelência com base no esforço e no sacrifício dos nossos filhos. A direita desviou o foco da atenção da igualdade de resultados apesar da desigualdade de capacidades - que é o objetivo da esquerda - para a igualdade de oportunidades, que é o santo-e-senha do pensamento liberal.
Por muito que pareça que as coisas mudaram, só há dois modelos de pensamento no mundo. O liberal é o que crê no indivíduo e confia nas suas capacidades. O socialista é o que considera inevitável dar-lhe assistência para que não incorra num eventual risco de poder originar frustração. E isto é o pior da esquerda. A colossal fraqueza moral que inflige a todos os cidadãos, mas sobretudo à nossa juventude, arrebatando-lhe qualquer expectativa de um destino honrado conquistado a ferro e fogo.
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