quinta-feira, 9 de junho de 2016

O grande circo das sanções europeias

Henrique Monteiro
Expresso, 20160606

Não percebo, mas acredito que não seja para perceber, como pode o PS, partido ainda ontem definido pelo seu líder como socialista e social-democrata moderado, falar de submissão à Europa ou, pior, de vassalagem às teses neoliberais da Europa. 
É bom, de vez em quando, assentar os pés na terra. É difícil, ou mesmo impossível, não estarmos submetidos a regras e leis de um espaço maior do que o nosso e que integramos por vontade própria. Quisemos entrar no Euro (e foi num Governo do PS, com Guterres, que o fizemos); quisemos pertencer à Europa (e foi num governo liderado pelo PS, com Mário Soares, que o assinámos). Mais: o próprio líder do atual, António Costa, disse este fim de semana algo que é claríssimo: que não se pode ser socialista (no sentido que o PS dá à palavra) fora da Europa. 
Mas vem João Galamba e diz: isto não é o Partido Europeísta; é o Partido Socialista! E desaba uma salva de palmas sobre ele. Onde está a contradição? Em nome do socialismo, Galamba quer abandonar a Europa? Só fica se a Europa pensar como ele? É que, recordemos, os socialistas não ganharam as eleições europeias e não estão em maioria nem no Parlamento nem na Comissão, que reflete indiretamente os Governos, nem no Conselho, que reflete diretamente os Governos. Por isso, falar de submissão à Europa é falar de submissão a regras previamente aceites – podemos ou não gostar delas, mas são as que temos. 
Eu penso que isto é importante para que haja uma demarcação clara do que quer a extrema-esquerda. Nomeadamente o PCP tem cartazes onde se exclama “basta de submissão”. O BE diz mais ou menos o mesmo e ambos são contra o tratado orçamental; o próprio Pacheco Pereira, o mesmo que era um dos líderes da bancada do PSD quando Cavaco pedalava para estar no “pelotão da frente”, aconselha a que se rasgue o tratado orçamental. Ou seja, aquilo que é um princípio de política económica e fiscal comum deve ser rasgado (é pena que a número dois do PS, Ana Catarina Mendes, também tenha criticado o Tratado). É claro que, se na Comissão, no Conselho e no Parlamento estivessem amigos de Costa ou os novos amigos de Pacheco ninguém diria provavelmente o mesmo. 
A Europa, com todos os defeitos – o principal dos quais é o de não ser um espaço inteiramente democrático e transparente nas suas tomadas de decisão – corresponde ao espaço mais livre e desenvolvido do mundo. Mais: a Europa tirou Portugal do seu atraso atávico e é ainda a Europa que, através do BCE, nos dá o oxigénio necessário à sobrevivência da nossa economia. Acicatar os ânimos contra a Europa pode ser perigoso e é, sobretudo, de uma demagogia sem par. 
Eu posso compreender por que razão, embora de forma contraditória em si mesmo, António Costa o faz. Ver-se-á a festa quando for oficial o que já toda a gente sabe: o anúncio de que não haverá sanções sobre Portugal! Nem sobre ninguém, como é da tradição. Mas o PS está a construir um caso que sabe ganho, para celebrar uma vitória. E, ainda que os sinais da economia sejam próximos da desgraça, o PS festejará alegremente o feito como prova de que vale a pena não ser submisso e falar grosso à Europa. 
Eu pergunto a quem fala ele grosso: a Juncker? Mas esse não quer sanções? A Hollande? Também não quer. A Renzi? Também não quer! A Rajoy? Muito menos! A Cameron? Os ingleses nem ao Euro pertencem (e sabe-se lá se pertencerão à Europa dentro de pouco mais de 15 dias). Falta Merkel… Mas Merkel tem mais do que fazer do que preocupar-se com Portugal e já deu a entender a toda a gente, incluindo a Marcelo, que não está a pensar nisso. Mais: se Costa fosse alemão, ou estava coligado com Merkel, como os seus congéneres, entre os quais Martin Schutz - que esteve no congresso do PS -, ou tinha aderido ao Die Linke, espécie de Bloco de Esquerda. Por isso resta a Costa e ao Governo português falar grosso a uns lituanos ou checos e outros que, tal como nós, pouco ou nada contam. 
Sanções? Não brinquem connosco… Lutar contra elas é como lutar para que o Sol nasça amanhã. Só uma catástrofe inimaginável nos faria perder essa luta.
Enviar um comentário