terça-feira, 7 de junho de 2016

Ama o gorila mais que ao teu semelhante

Daniel Oliveira, Expresso 2016.06.07

Uma criança de três anos caiu numa jaula de gorilas a céu aberto. Um dos gorilas, de 220 quilos, agarrou a criança e arrastou-a pela água, possivelmente até para a proteger, mas com uma força que a punha em sério risco. Os tratadores do gorila, provavelmente os que melhor o conhecem e mais afeto terão por ele, abateram o animal para impedir o pior. Porque para o ser humano a vida de uma criança da sua espécie vale mais do que a de um animal, mesmo que seja uma espécie ameaçada, mesmo que seja o gorila que todos os dias se trata, mesmo que não tenha culpa do que lhe está a acontecer. Poderá ser discutível se tomaram a melhor opção. Mas há momentos em que não se podem fazer análises cuidadas. Não quando as duas vidas em causa são as de uma criança e de um gorila. Aí, faz-se o que fazem todas as espécies, o que faria o gorila se estivesse em causa uma cria sua. 
Como seria de esperar, nasceu um movimento para que se faça justiça, com centenas de milhares de seguidores nas redes sociais, acusando os tratadores que salvaram a vida de uma criança por não terem usado dardos tranquilizantes. Aqueles que noutros tempos seriam considerados heróis são agora transformados em vilões. O procurador do condado de Hamilton, onde fica o zoo, vai abrir uma investigação. E bem. Há falhas de segurança óbvias no Jardim Zoológico e responsabilidades parentais que podem ter de ser esclarecidas. 
Na última semana de maio morreram, segundo o ACNUR, 880 refugiados no Mediterrâneo. Foi uma semana especialmente trágica, que fez aumentar para mais de 2500 as mortes nos naufrágios só nesta primeira metade de 2016. Só num dos naufrágios afogaram-se mais de 500 pessoas, sendo quase meia centena crianças. 
O gorila abatido tem nome, tem rosto e contabilizei, só em língua portuguesa, mais de 150 notícias sobre ele. Não consegui recolher identificações ou histórias de nenhum dos 880 refugiados que morreram no Mediterrâneo na última semana de maio 
O gorila tem nome – chama-se Harambe –, tem rosto e contabilizei, só em língua portuguesa, mais de 150 notícias sobre este assunto. Milhares em todo mundo, num movimento global de consternação. Não consegui recolher identificações ou histórias sobre nenhum dos refugiados que morreram no Mediterrâneo. São um número apenas e, na busca que fiz, esta aterradora catástrofe, que parece já ter caída na banalidade quotidiana, mereceu muito menos notícias em todo o mundo. Na língua portuguesa contei menos de 100. Ninguém pode, desta vez, argumentar com a proximidade. Os refugiados morreram aqui mesmo ao lado, o gorila foi abatido nos Estados Unidos. A proximidade é outra. Dito de forma curta e grossa: demasiadas pessoas sentem mais empatia por um gorila do que por milhares de refugiados, mesmo quando são crianças. 
É possível preocupar-nos em simultâneo com a morte de um gorila e a morte de milhares de humanos? Claro que é. Então porque sublinho tantas vezes e esta crescente obsessão com os animais? A resposta está nos dados que acabei de dar. Os animais ganharam, para os humanos, rosto, nome, identidade. Pelo contrário, os humanos são números. Há uma desumanização dos nossos semelhantes, cujo sofrimento nos parece banal, e uma humanização dos animais, de quem cada vez mais gente vê como "amigo", "filhote", melhor que a maioria dos humanos. 
Claro que não há incompatibilidade na preocupação com animais e humanos. Não é por nos preocuparmos cada vez mais com o bem estar dos animais que desprezamos os humanos que nos estão mais distantes. A relação causal é a inversa: à medida que nos isolamos e atomizamos numa sociedade deslaçada, em que se está a perder o sentido de comunidade, substituímos a empatia pelos humanos pela empatia por seres que nos dão menos trabalho. Não nos contrariam, não nos julgam, não nos exigem nada. A crescente empatia com animais não faz mal ao mundo. Só que a evidente inversão de valores, que torna a morte de um gorila mais próxima e comovente, e por isso mais apelativa para os media, do que a morte de 880 humanos no Mediterrâneo é um sinal de um processo de autodestruição moral da humanidade. 
À medida que as sociedades modernas nos isolam no nosso umbigo, contrariando os nossos instintos gregários, substituímos o objeto da nossa necessidade inata de sentir afeto. E isso assusta-me. Porque essa substituição, parecendo generosa, encaminha-nos para o inferno. Porque no dia em que hesitarmos por um segundo que seja em matar um animal para salvar as nossas crias estaremos irremediavelmente condenados. Nós ou qualquer outra espécie. E só é possível negarmo-nos este instinto de sobrevivência e proteção dos nossos porque nos desligámos de tal forma da natureza que deixámos de compreender as suas duras regras. Humanizámos os animais, a quem demos nomes e traços identitários ficcionados que apenas para nós podem fazer qualquer sentido. Tudo o que negamos à massa indistinta de humanos que dá à costa, como cadáveres inomináveis, sem direito a ser mais do que um número.
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