A um passo do suicídio coletivo

Miguel Angel Belloso
DN 20160624

Em outubro de 2014 fizemos uma entrevista a Pablo Iglesias, o líder do partido radical Podemos, homólogo do Bloco de Esquerda, que foi capa da Actualidad Económica e que ainda pode ser vista no YouTube.
Entre as suas muitas ideias peregrinas estava não só a de aumentar o salário mínimo, o que conduz diretamente ao desemprego, como também a de estabelecer um ordenado máximo. Limitar a remuneração das pessoas, o que não passa pela cabeça de ninguém com senso comum, apresentou-se-me como uma proposta disparatada, mas o inefável Iglesias surpreendeu-nos com o exemplo da Suíça, onde, segundo dizia então, os cidadãos não podiam ganhar mais de 12 vezes o salário mínimo legal. Nós ficámos estupefactos, mas quando a seguir investigámos o assunto reparámos que o Sr. Iglesias nos tinha mentido, como é o seu estilo, e mais ainda nestes momentos de campanha eleitoral em que decidiu vestir o seu pensamento destrutivo com uma pele de cordeiro. Com efeito, na original Suíça submeteu-se a referendo limitar os salários dos executivos, mas esta iniciativa foi refutada na consulta, quase um ano antes de Iglesias ter feito manhosamente eco de tal possibilidade, dando-a como certa.
A Suíça voltou a ser notícia, felizmente. Há três semanas, os cidadãos também recusaram maciçamente a proposta de referendo para generalizar um rendimento garantido de quase 2300 euros para todos os habitantes do país. Nunca se saberá exatamente a razão pela qual cada um rejeitou uma benesse deste tipo. Ocorrem-me as que a lógica dita: o enorme custo orçamental da medida, a história de uma nação profundamente apegada ao valor do trabalho e a prudência de quem detesta fazer experiências perigosas. Não podendo ser de outra maneira, os intelectuais de esquerda estavam por trás da iniciativa argumentando que um país tão rico não pode permitir que alguns dos seus cidadãos vivam pior do que outros, sem ter em conta as suas capacidades, os seus méritos e a sua determinação para dar o melhor de si próprios. Queriam financiar a sua loucura, como a esquerda sempre faz, espoliando os melhores, os que se destacam: por exemplo, projetando um imposto sobre as transações eletrónicas. Na Suíça o desemprego é de 3,5%, abaixo do que é considerado pleno emprego, as ajudas sociais são generosas e o rendimento per capita é o dobro do espanhol.
Mas em Espanha os partidos de esquerda, incluindo o Ciudadanos - que tem mais inclinação para a esquerda do que para o centro -, há muito tempo que reivindicam as mesmas bagatelas, quer seja um rendimento garantido para todos ao estilo suíço, que é a ideia extremista do embusteiro Iglesias, quer seja um complemento salarial garantido, que é o que propõem, com alguns matizes, tanto o Partido Socialista como o Sr. Rivera - o líder do Ciudadanos -, quer seja um emprego público assegurado, que é a última ideia descabelada do socialista Pedro Sánchez. A ideia é consolidar no imaginário público o signo da derrota - a impossibilidade de reconstruir com base no esforço o seu próprio destino -, prender os cidadãos à dependência inexorável do Estado e decretar a condenação fiscal dos melhores, com impostos cada vez mais altos e intoleráveis.
A tudo isto a Suíça disse não. Durante os últimos anos, os suíços, em vários referendos, opuseram-se ao aumento do salário mínimo, conscientes de que poderia destruir o nível de emprego de que desfrutam, opuseram-se a limitar o salário máximo, porque tal possibilidade acabaria com qualquer tipo de incentivo para progredir na vida, e recusaram há poucos dias um rendimento garantido generalizado, para os mais desfavorecidos e para os que têm mais, porque tal eventualidade representa a destruição de qualquer das motivações que induzem as pessoas a trabalhar em prol de um futuro melhor e é uma autêntica bomba-relógio para o potencial de geração de riqueza que todos temos, sobretudo se somos postos à prova. A pergunta-chave neste momento, a dois dias apenas de haver novas eleições no meu país, é porque há tantos espanhóis dispostos a votar naquelas opções que os suíços recusaram reiteradamente. As últimas sondagens revelam um panorama igualmente desolador ao que se produziu nas anteriores eleições de 20 de dezembro passado. A direita dirigida por Mariano Rajoy vencerá, mas sem os votos suficientes para formar um governo estável. O Podemos, que se apresenta em coligação com os antigos comunistas, pode transformar-se na segunda força política, afastando para um terceiro lugar o Partido Socialista, que é quem governou Espanha durante mais tempo, mas que entrou numa fase de deterioração alarmante; e o Ciudadanos, que é um novo partido que não sabe se está mais à esquerda do que à direita, ocuparia a quarta posição.
Mas o realmente inquietante neste cenário é que todos os partidos, com a exceção matizada da direita, prometem no seu programa um aumento da despesa pública, uma subida dos impostos e uma maior intervenção do Estado na economia, que é justamente o que não convém ao país se quiser continuar a ter um alto ritmo de crescimento económico e de criação de emprego. À exceção do PP, todos propõem um rendimento garantido generalizado, ou um seu sucedâneo, e um incremento das políticas redistributivas e de proteção social, esquecendo que o segredo de polichinelo da prosperidade das nações é a competitividade das suas empresas e a produtividade dos seus trabalhadores, acompanhadas de um Estado pequeno, austero e eficaz, em que as inevitáveis ajudas comunitárias se dirijam em exclusivo aos que não podem ganhar a vida por si próprios.
As advertências sobre o que pode acontecer no meu país no caso de o resultado eleitoral vir a ser o que as sondagens refletem são numerosas e muito claras. Um Parlamento tão fragmentado como o que aquelas anunciam tornaria muito difícil a luta contra o défice e a continuidade das reformas para promover o crescimento. Pior ainda, a possibilidade de haver um governo de esquerda no qual o Podemos e o inefável Pablo Iglesias tivessem um grau de influência considerável conduzir-nos--ia diretamente à recessão e ao afastamento da União Europeia, na qual voltámos a ganhar um lugar destacado depois da nefasta gestão de Zapatero. As cartas estão em cima da mesa, os eleitores têm, neste momento, mais informação do que nunca sobre o que está em jogo, muita mais do que a 20 de dezembro passado. Só há que ter esperança que acertem, apesar de sabermos da inclinação natural e atávica que muitos países têm, o meu em especial, para se suicidar coletivamente.
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