quinta-feira, 23 de junho de 2016

Carapaus de corrida e tiros pela culatra

João Pedro Henriques
DN20160623

Gostava de perceber o processo mental que leva um governo - e, no caso, um ministro das Finanças - a promover uma conferência de imprensa, para não dizer nada sobre a CGD, exatamente 90 minutos antes de se iniciar um jogo de futebol da seleção nacional, no qual grande parte do país está com os olhos postos (para já não falar no facto de ser na véspera do referendo no Reino Unido).
Se bem os entendo, os spin doctors governamentais devem pensar que assim contam com uma atenção pública desatenta e sobretudo com a impossibilidade de os partidos (a oposição mas também os aliados da "geringonça") reagirem de forma audível em tempo real. Imagino os pulos de alegria que esses cavalheiros e cavalheiras devem ter dado ontem logo pela manhã quando viram Ronaldo a tirar o microfone a um jornalista da CMTV e atirá-lo para um lago (o microfone, não o jornalista). O futebol é o ópio do povo e mais ainda quando o adornam com episódios virais.
Pode pensar-se que na ação governamental o que conta é a competência com que são geridos os dossiês e não tanto a forma como se comunica. Sim, mas. A competência é o essencial, mas na comunicação afere-se a forma como um corpo político - é do governo que falamos - se sujeita ao escrutínio dos eleitores. Porque é pela comunicação, intermediada pelo jornalismo, que se diz aos eleitores o que se faz e o que não se faz e se lhes permite verificar se palavra dada foi mesmo palavra honrada ou nem por isso.
Ora isso - o escrutínio popular da ação política - é uma trave mestra no processo democrático. Um governo que abre as decisões ao olhar público é um governo que respeita o processo democrático. Um governo que esconde as suas decisões não respeita o processo democrático. E um governo que abre o processo de decisão mas o faz numa altura em que pensa que está tudo a olhar para o lado é um governo que só finge que adere ao processo democrático - e acima de tudo um governo de carapaus de corrida que vê nos eleitores uma massa uniforme de idiotas.
Nessa medida, a conferência de imprensa governamental marcada para noventa minutos antes do jogo decisivo da seleção acaba por ser bastante reveladora - bastante mais do que os spin doctors presumiriam inicialmente. Ao querer tapar a informação sobre a CGD fingindo que se está a mostrar alguma coisa, o governo o que revela é ter medo do assunto. Se calhar o que importa mesmo no inquérito parlamentar é o que se está a passar agora no banco público e não o que se passou há quase dez anos. Mas enfim: dias depois de uma deputada do PS, Gabriela Canavilhas, pedir publicamente o despedimento de uma jornalista por discordar do que escreveu, isto acaba por não surpreender.
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