Sofrer

Inês Teotónio Pereira, i-online 20 Abr 2013

É quase tão injusto a intolerável circunstância do sofrimento de um filho nosso quanto um brutal aumento de impostos

Uma coisa que nos custa imenso entender é que os nossos filhos também sofrem. O que é absolutamente inacreditável. Como é que crianças inocentes, indefesas, que nem sequer pediram para nascer, sofrem? Como é que isso é possível? Choram, entristecem, magoam-se, ofendem-se, sentem-se sozinhos, incompreendidos, injustiçados. E são tão pequeninos... Ainda não têm dois meses e já se contorcem com cólicas. Porquê? Não há direito: se o mundo fosse um lugar decente, os nossos filhos não sofreriam. É quase tão injusta a intolerável circunstância do sofrimento de um filho nosso como um brutal aumento de impostos. Que culpa temos nós? Que culpa têm eles?
Por não aceitarmos este estado das coisas, por estarmos convictos de que temos o direito de os nossos filhos não sofrerem, é que nos revoltamos. Revoltamo-nos, organizamos manifestações e vamos à luta. A luta contra o sofrimento dos nossos meninos. Existirá guerra mais santa?
E é então que nos tornamos mosqueteiros/sindicalistas dos nossos meninos. Tornamo-nos exímios em protegê-los e em reivindicar os seus direitos. Sem tréguas, sem fins-de-semana. Qualquer sopa de espinafres que incomode, que faça o nosso filho sofrer, deve ser esmigalhada, triturada, qualquer regra que o faça chorar deve ser eliminada e qualquer amigo que o ofenda deve ser nosso inimigo. Sem mais. Os nossos filhos não devem ter desgostos, não devem ter angústias. E se não conseguimos eliminar o seu sofrimento sozinhos, apenas com as nossas capas, espadas e manifestações, pedimos reforços, pedimos ajuda às avós, a médicos, a professores, a amigos, vamos ao Facebook e ao Google até que o inimigo se renda. Vale tudo para lhes secar as lágrimas. Tudo tem cura e o sofrimento dos nossos filhos também deve ter. Deve existir um remédio qualquer. E se não existe um remédio para eles, existirá certamente um remédio para nós.
E o pior é que os nossos meninos sofrem muito. Sofrem por tudo e por nada. E nós conseguimos prevenir as causas do seu sofrimento. Não sabemos de onde e quando elas chegam. Não há qualquer tratamento preventivo para este sofrimento. Ele chega de repente, como a conta da luz, e prega-nos sustos de morte, como a conta da luz. Os nossos filhos sofrem com a escuridão da noite, com os monstros que estão atrás da porta da mesma forma e com a mesma intensidade com que sofrem quando têm de ir para cama, quando não podem jogar Play-Station ou quando têm de comer um prato de salada. Eles sofrem genuinamente: as lágrimas são mesmo verdadeiras.
Com o tempo, nós, pais, aprendemos a viver friamente com o sofrimento dos nossos filhos. Como vamos perdendo algumas batalhas, vamos retirando as tropas. E deixamo-los sozinhos com as suas angústias. Fugimos, vá.
E de mosqueteiros passamos a espantalhos. De acharmos que tudo tem cura passamos a achar que "a vida é mesmo assim", cheia de angústias e de sofrimentos, que o mundo é cruel e não há lugar para pieguices, para mariquices, para choraminguices. O mundo é dos fortes e só sofre quem aprende a sofrer, segundo o Rambo.

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