A pena do Dumbo

Saragoça da Matta, ionline 5 Abr 2013
Portugal tem que ter um projecto. E tem que acreditar que serve para alguma coisa
Todos nos lembramos da história do Dumbo. E da necessidade que teve de uma pena para acreditar que podia voar. Quando se habituou a voar, percebeu que não precisava de qualquer pena. Era tudo uma questão de fé em si mesmo. E de querer voar.
A história de Portugal é a história do Dumbo. Durante o par de séculos inicial da sua história Portugal viveu da fé na fé, i.e., de acreditar em que lhe cabia aumentar a Cristandade. Ter terra era a pena. Terminada a reconquista Cristã, vazio de objectivos, Portugal definhou até que lhe deram novo objectivo: as descobertas! Aqui a "pena" foi a fé e os lucros do comércio. Assim se viveu uns quantos séculos. Acabados os projectos, caminhou em direcção ao abismo: foi a Revolução de 1820. Seguiram-se quase quarenta anos de uma guerra fratricida, que terminou pela força de um Rei forte. Mas que não conseguiu dar à nação nenhum novo projecto. Valeram a Portugal alguns Ministros visionários, que modernizaram o País. Mas o reformismo interno não chega, nunca chegou, como projecto para uma nação. E por isso entre 1860 e 1926 Portugal viveu sem rumo. Sem projecto. Não havia nada para construir. E acabou na bancarrota!
Nem a implantação da República trouxe qualquer alento ao Povo e à Economia. Portugal continuou à deriva até que lhe inventaram um novo projecto: o desenvolvimento e consolidação do Império. A pena foi o patriotismo. Durou cinquenta anos.
Novamente sem projecto e sem pena, definhou. Soçobrou ao canibalismo dos grupos abancados no poder. Por isso, tal como com a República, o 25 de Abril veio prenhe de promessas e sonhos. Mas projecto nacional, nenhum! Sem império, com o patriotismo a ser confundido com reaccionarismo, não foi só o vazio de projectos. Foi a ausência de pena. E acabou de novo na bancarrota.
Portugal andou aos tropeções até que lhe disseram que o projecto era ser Europeu. A pena aqui foi a qualidade de vida: uma espiral infindável de prosperidade e dinheiro fácil. Desde a adesão à União, Portugal viveu de empréstimos e de donativos dos vizinhos europeus. Tal como com o ouro do Brasil, foi gastar à tripa forra. Liderados por irresponsáveis que não se preocuparam em investir em estrutura produtiva, o povo concentrou-se no seu estômago e luxos. Acontecera nos séculos anteriores. Está escrito nos livros de história.
Acabou onde? Na bancarrota. E em vez de um mea culpa, grita-se pela solidariedade europeia… como se fosse exigível que os outros nos continuassem a sustentar depois dos grossos cabedais que nos deram durante um quarto de século.
Pretendem agora que o projecto seja o reformismo interno. Não é! Nunca foi. Portugal tem que ter um projecto. E tem que acreditar que serve para alguma coisa. Sem levar uma pena na tromba. Algo havemos de saber fazer. E não nos falem no calçado, no vinho, na cortiça, no futebol. Nada disso são projectos. Nada disso servirá para pagarmos as nossas contas. Portugal tem de cair na realidade! Se quer ter segurança social, educação, saúde, prestações sociais, então produza para sustentar os seus gastos. Se Portugal não quiser voar, nenhuma pena servirá para nada.

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